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sábado, 18 de março de 2017

Sobre o final de análise

(Para comemorar os 50 anos da Proposição de 9 de outubro de 1967 de Jacques Lacan)

Toda a Proposição de 09 de outubro de 1967 podemos dizer, gira em torno de um “Tornar-se responsável do progresso da Escola, tornar-se psicanalista de sua experiência mesma(1), que continua vivo instituindo o novo no funcionamento(2).
O dispositivo do Passe construído - prudentemente, como nos diz o próprio Lacan - com a “intenção de isolar o que existe do discurso analítico”(3), segue levando à frente o seu objetivo de poder emprestar alguma luz ao princípio que está inscrito nos textos originais da Escola: “o analista só se autoriza de si mesmo”(4). Em outras palavras, é o dispositivo do Passe que “permite a quem pensa poder ser analista, comunicar o que o fez decidir-se e engajar-se num discurso do qual não é, certamente, fácil, ser o suporte”(5).
Mas de que experiência se trata? J. A. Miller nos diz que não é uma experimentação qualquer. “É a experiência entendida como subjetiva”(6), onde o “sujeito se dispõe a experimentar uma, talvez várias transformações, ou ao menos (...) certos estados inéditos para ele”(7). É uma experiência, podemos dizer, que implica num consentimento. Um consentimento com a experiência do inconsciente(8). Uma experiência que só se faz conhecer no “só depois” da significação, ponto onde se pode enlaçar, “no horizonte mesmo da psicanálise em extensão, o círculo interior que traçamos como hiância da psicanálise em intensão”.(9)

Proponho começarmos pelo “envelope formal do sintoma, que é o verdadeiro traço clínico...”(10) para examinarmos a incidência de uma interpretação que possibilitou a entrada em análise e, em seguida, trabalharmos a estrutura do sintoma enquanto “geometria do real”(11) para, assim, esclarecermos a interpretação que propiciou a criação de um ponto de báscula no quadro de uma cena onde a travessia do fantasma aconteceu.
O conceito, “envelope formal”, vamos encontrá-lo quando Lacan menciona a genialidade clínica de Clérambault, numa época em que desenvolvia sua teorização a partir da barra que mantinha separado significante e significado. Esta proposta girava em torno da possibilidade do simbólico recobrir todo o campo do imaginário. Nesta perspectiva, o sintoma seria o que vem atrapalhar a bela ordem articulando-se ao que “representa o retorno da verdade como tal na falha do saber”(12).
Minha proposta é instalar o “envelope formal do sintoma”, no andar inferior do Grafo do Desejo. Assim, a “verdade como falha do saber”, vai mobilizar o sujeito na busca de um “suposto saber” que possa restabelecer a estabilidade perdida instalando, na transferência, o sintoma analítico. Este momento de alienação ao Outro vai requerer uma intervenção do analista para que uma entrada em análise possa acontecer.
Se for bem sucedida, esta intervenção vai propiciar ao sujeito um encontro com as demandas do Outro que designam o ponto de fixação do circuito pulsional.
No segundo andar do Grafo, proponho trabalhar o sintoma como “geometria do real”(13). Ora, é o simbolicamente imaginário que vai constituir a verdadeira geometria e não o que surge dos espíritos puros. A geometria do real, nos diz Lacan, é a que tem um corpo, é a que nos referimos quando falamos de estrutura [S(A/)].
Nesta “geometria do real”, o sintoma é o que faz laço com o inconsciente, colocando-se como o quarto elo do nó para, assim, manter ligados o Imaginário, enquanto corpo, ao Simbólico da fala, enquanto o que produz efeitos sobre este mesmo corpo. O Real é o furo que o simbólico promove e contorna.
Esta última formalização, Lacan só pôde construí-la ao deslocar a ênfase que estava colocada sobre a barra do algoritmo S/s o que implicava uma esperança do simbólico recobrir todo o imaginário, para a relação do Simbólico com o Real onde o que está em jogo é um corte que deixa um resto.
Proponho-lhes localizar o final de análise neste ponto onde, depois de um percurso em que uma cena da fantasia fundamental pode ser construída vai acontecer uma interpretação que poderá desmontar o enlaçamento do sofrimento que trouxe o sujeito à análise, ou seja: a fantasia e o sintoma, deixando o sujeito frente a frente com o seu desejo.


Notas:
(1)Lacan, J., “Proposition  du 9 october 1967...”, in Scilicet nº 1, Ed. du Seuil, Paris, 1968, pag. 14.
  NOTA: Esta frase foi motivo de amplo debate entre Guy Clastres e J.A. Miller, publicado em Revue d’École de la Cause Freudienne, nº 18, pag. 209.
(2) Ibidem.
(3)Lacan, J., “Sur l’experience de la passe”, in ORNICAR? 12/13, Ed. du Seuil, Paris, pag. 117.
(4)Lacan, J., “Proposition...” op. cit. pag. 14.
(5)Lacan, J., “Sur l’experience de la passe”. Op. cit. pag. 118.
(6)Miller, J.A., ”Donc, je suis ça”, in Revue de Psychanalyse nº 27, pag. 10.
(7) Ibidem.
(8)Lima, C.R., “A segunda entrada em análise...”, in Opção Lacaniana nº 15, pags. 66-68
(9) Ibidem.
(10)Lacan, J., “De nos antécédents”, in Écrits, Seuil, Paris, 1966,pag. 66.
(11)Lacan, J., “Conferences et Entretiens”, in Scilicet 6-7, Seuil, Paris, 1976, pag. 40.
(12)Idem, - “Du sujet enfim en questions”, in Écrits, Op. cit. pag. 234.
(13)“Symboliquement imaginaire - c’est la geometrie ... la geometrie véritable n’est pas celle que l’on croit, celle que relève des purs esprits, mais celle qu’a un corps. C’est ce que nous voulons dire quand nour parlons de structure.”
- Imaginairement Symbolique - ça s’appelle la vérité.
- Symboliquement rèel - c’est l’angoisse (ce qui du rèel se connote à l’interieur du symbolique)
- Rèellement symbolique - c’est le symbolique inclus dans le réel - le mensonge.
 Lacan, J., “Vers un signifiant noveau”, in ORNICAR? nº17/18, pag. 9.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Sobre a Intolerância

“A intolerância sempre existiu, mas aumentou muito. Estamos vivendo reedição às avessas das famosas Cruzadas. Os cristãos saíram da Europa para atacar os muçulmanos e, hoje, o movimento é contrário. Acredito que as razões mudaram, apesar de os efeitos serem semelhantes. Estamos sofrendo mudança na nossa cultura, desde meados do século passado de forma acelerada. Há coisas boas e outras não. A ciência se desenvolveu de forma radical e trouxe consequências. Temos acesso às informações de forma instantânea. Um dos grandes progressos foi a pílula anticoncepcional, que trouxe como consequência a liberação da mulher do vínculo do casamento. Ela não precisaria ter um homem que a sustentasse e escolheria quando, onde e com quem engravidar. Logo em seguida, a ciência ofereceu à mulher a possibilidade de dispensar o parceiro para engravidar. Isso desfez, de alguma maneira, algo que existia desde a Renascença, até meados do século passado, que era a unidade do casamento porque era nessa célula que reinava o que a psicanálise chama de em nome do pai: a lei. A pessoa nascia em um ambiente em que as coisas estavam determinadas: homem se casa com mulher, cresce, trabalha, produz dinheiro. Na medida que a mulher foi se deslocando, criou-se uma possibilidade de novas investidas da própria ciência. Zygmunt Bauman, sociólogo polonês morto recentemente, coloca no livro A modernidade líquida, de maneira bem clara, como nossos limites foram se dissolvendo e dá exemplo da mudança da sociedade hardware para software, em que as empresas estão cada vez mais líquidas. Antes, éramos um grupo, hoje, estamos no reinado do 1 e esse 1, para se proteger, está cada vez mais avesso às diferenças. Não as suportando mais, ele tenta agredi-la ou se agrega aos que têm aversão a determinado estímulo. A liberdade de escolha para os homossexuais é agressão para os homofóbicos. Essa liquefação diz que está cada vez mais exigindo de cada um a responsabilização de seus atos. Há insuportabilidade da diferença em função de toda essa evolução que vem, o que chamamos de declínio da função paterna, em que a lei perde os seus limites. Quanto menos você sabe dos seus limites, mais frágil se coloca para suportar a diferença e, paradoxalmente, a falta de limites é que propicia mais liberdade. Hoje, não se tem mais respeito ao outro, e isso é consequência séria da falta de limites, por causa da sociedade software. Se não está bom, não tolero essa frustração, eu mudo. As diferenças estão insuportáveis. Não suportamos no outro o que não conseguimos consentir na gente.”

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Demanda de Análise e Pulsão

            Faço a opção de começar pela clínica e, desta forma, do particular para uma formalização passível de transmissão.
Maria começa sua primeira entrevista dizendo: “Sabe, estou lhe procurando porque não suporto mais a minha angústia”.
A angústia, nos ensina Freud, é um sinal. Um sinal de que algo não está funcionando bem. É um sinal de que as garantias que sustentavam o sujeito no mundo perderam esta capacidade.
Ao ser questionada sobre possíveis acontecimentos que poderiam estar relacionados com o surgimento desta angústia, Maria respondeu: “Está tudo absolutamente normal como sempre foi... com exceção de que vou me casar em breve. Mas, quanto a isto já está tudo resolvido. Nem quero tocar neste assunto. Aí não tem problema algum. Mas a minha angústia... está insuportável. Até aqui eu não contei para ninguém. Eu sempre aguentei tudo sozinha. Só agora é que comentei com uma amiga e ela me passou o seu nome...”
Michel Silvestre, em seu texto “Amanhã, A Psicanálise”, nos lembra que há uma diferença entre a queixa e o sofrimento. Maria, por exemplo, sofria mentalmente sem, no entanto, fazer qualquer queixa até que o casamento próximo trouxe consigo a questão do sexual e com ela um ponto de incerteza aí onde ela acreditava saber tudo.
O sintoma, sendo a primeira mensagem cifrada, pleno de sentido, traz em si o ciframento do gozo, que se apresenta como um ponto sem sentido.
Enquanto ciframento, o sintoma implica um endereçamento onde ele se decifra. Assim, de acordo com M. Silvestre, o que temos é: “de um lado, um sofrimento que o sujeito pode suportar com heroísmo estóico e sem dizer palavra. De outro, os portadores de sintomas que banham seu ambiente com eles, sem sofrerem eles mesmos absolutamente nada. Na medida em que os dois se conectam na mesma pessoa, isto pode produzir uma demanda de análise”.
Pode produzir, não quer dizer que produza, pois neste ponto em que o sintoma de Maria claudicou e um-a-mais de sofrimento foi acrescentado ela formulou uma queixa endereçada a alguém que ela supõe saber como restituir-lhe a satisfação perdida. Sim, porque havia uma satisfação no seu sofrimento. “Eu venho aqui, me disse Maria, para que você me ensine como é que vou fazer com a minha angústia”.
Lacan, em seu Seminário XI, nos diz que a única coisa que justifica a nossa intervenção como analista é este “mal-a-mais” que acontece quando o sintoma claudica e, se há uma retificação a ser feita na relação do sujeito com a satisfação, esta deverá ser a nível da pulsão.
No caso de Maria, que é uma profissional séria, que sempre foi a 1º aluna em todos os cursos que fez e que sempre resolveu todas as suas angústias através do saber que encontrava nos mestres e nos livros, o casamento próximo faz desvelar algo, que é ao mesmo tempo novo, estranho, mas também muito familiar.
A este ponto estranho-familiar que vem dizer da inconsistência do Outro que até então era tudo-saber, Lacan vai chamar de “objeto a”. É exatamente o aparecimento na cena, deste objeto que se apresenta aí onde o significante falta S(A/), que vemos surgir a angústia como sinal.
A angústia, portanto, não é um sintoma. Um sintoma é o que se produz, como significação do Outro, na tentativa de prover este objeto “a” de um envelope formal.
E Maria tenta “saber”, como forma de vestir este vazio com os significantes que o Outro possa produzir em reposta às suas queixas.
Mas o “saber” de Maria falhou. O sintoma constituído que lhe sustentava o mundo claudicou e, por isso, acrescentou-se um sofrimento a mais que propiciou a formulação de uma demanda: “eu não dou mais conta e procuro você porque acredito que você sabe...”
Maria tenta, neste momento, refazer a fratura que sofreu o envelope formal de seu sintoma, instalando no lugar um sujeito que ela supõe saber. É a tentativa de refazer, pela via do amor, as identificações que até então mantiveram ao abrigo este último reduto significante do sujeito, a pulsão, antes que ele caia no sem respostas, este lugar que foi matemizado por Lacan com o S (A/). Ao restabelecer, no amor de transferência, esta fratura instalando aí o analista como sintoma, o sujeito restabelece a crença de que o desejo do Outro é equivalente a sua Demanda. Talvez por isso é que Lacan afirma no texto  “A Subversão do Sujeito…” que o neurótico confunde o objeto de desejo do Outro com a demanda, fazendo um curto-circuito da fantasia à Pulsão.
Este é o momento em que uma escolha se impõe àquele a quem é dirigida esta demanda. A escolha é forçada, sem dúvidas, mas a possibilidade está colocada, e se apresenta em função da radicalidade da distinção entre a queixa e o sofrimento: “tratar a queixa, ou colocar em causa o sofrimento”.
Caso se faça a opção por tratar a queixa, oferecendo respostas ou até mesmo modelos de conduta, a suposição de saber estará sendo investida e, assim, cada traço oferecido servirá apensas para recobrir a causa, na esperança da constituição de um eu fortalecido que venha “dar conta” do sofrimento.
O recurso da topologia do Grafo do Desejo e das superfícies vai nos auxiliar nesta discussão:
Posso representar a situação descrita acima, no Grafo do Desejo, pelo andar inferior








Onde a busca da significação de um Outro para restabelecer a satisfação perdida produzirá imagens que, sendo propícias à identificação, vai fortalecer um “eu” (moi) que vai poder suportar as significações já pré-estabelecidas.




A Banda Circular, com suas 2 bordas, superposta ao circuito descrito no Grafo do Deseno, vai nos dizer da presença de dois sujeitos em cena. Dois sujeitos barrados e desejantes de sentido, na esperança de que possa ser excluída a questão que traz o “sem sentido” que habita o seio de toda significação. Ao mesmo tempo, aponta para a impossibilidade de se intervir pois, o que vemos são dois caminhos que são percorridos sem que haja qualquer mudança de posição, ou seja, a cada volta retorna-se ao mesmo lugar.
A outra possibilidade, a única para que uma análise possa acontecer, é a de se sustentar este lugar de endereçamento da demanda como vazio. Esta é a decisão que implica numa certa “renúncia de gozo”. Isto só se dá no momento que fazemos operar  o Desejo do Analista. Este desejo pode ser definido assim: dizer não à demanda para que se possa saber um pouco mais do desejo em questão, lembrando que o sujeito em questão numa análise é o analisante. Em outras palavras, para que se possa saber um pouco mais do que são as primeiras relações do sujeito com seus objetos.
É verdade que para operacionalizar este desejo é fundamental que o analista tenha caminhado, em sua análise pessoal até o ponto em que encontra a falta do significante no Outro. Até que se possa saber de uma certa opacidade subjetiva que permanece incrustada no Outro como restos da passagem da necessidade pelos desfiladeiros do significante. Saber  este único a operar como verdade.
Utilizando então a topologia do Grafo do Desejo, localizo esta passagem como sendo a do andar inferior para o andar superior:

 






A demanda endereçada ao lugar Outro se depara com este ponto de opacidade subjetiva que vai dizer da “presença primitiva do desejo do Outro como opaca, como obscura”. Isto deixa o sujeito sem recursos, desamparado (Hiflos). “Se está aí o fundamento disto que em análise foi explorado, experimentado, situado como a experiência traumática, é também onde se situa o horizonte do ser para o sujeito. É neste intervalo, nesta brecha de entre dois significantes que se coloca a experiência do desejo...”! (Lacan, S. VI)
A entrada em jogo do desejo do analista, fazendo passar do andar inferior para o andar superior, modifica totalmente a estrutura que, no andar inferior está representada pela Banda Circular. No entanto, neste ponto de opacidade subjetiva no Outro, uma meia torção vai ocorrer, transformando a Banda Circular em uma Banda de Moebius, confirmando, com sua borda única e seu lado único, que na análise só há um sujeito em questão: o analisante.





Esta é a retificação que coloca a questão da existência do sujeito a partir do esvaziamento dos significantes da demanda do Outro. Em outras palavras, é quando o envelope formal do sintoma não mais faz frente ao desamparo (Hiflosigkeit) que o sujeito encontra a dor de existir.
Para que esta experiência possa ser levada a cabo é fundamental um silêncio. Um silêncio que é muito mais que um simples calar-se. É o silêncio da falta de palavras que coloca o sujeito num lugar de onde ele não tem outra saída senão entrar e construir algo.
Verificamos no matema da transferência:

                           S ——————————>    Sq
                           _____________________
                           S ( S1 S2 S3 .................Sn )


 que quando um sujeito busca um significante que poderia representá-lo ele, na verdade, vai se deparar com uma falta o que o leva a buscar um objeto que acredita apaziguar seu desejo. Ele vai, então, tentar se articular com esse objeto de alguma maneira. E ele o faz a partir dos restos perceptivos que o constituíram num primeiro momento. São as percepções de sua primeira experiência de satisfação e que nunca sofreram tradução de traços de percepção para traços de memória. Alguns destes traços ficam como restos e são estes restos que colocam para o sujeito a pergunta: Que queres? É a partir destes restos que o sujeito vai construir sua fantasia fundamental.
Lacan, em seu Seminário XI, nos diz: “Não nos interessa explicar porque sua filha é muda, do que se trata é fazê-la falar !” Ora, a fantasia é muda. Construída a partir de dois elementos estranhos entre si:  $ (Simbólico) e “a” (Real), e se manifesta no Imaginário, pois esta fantasia nada mais é do que a colocação em cena dos significantes do sujeito.
É, pois, fundamental, que se faça falar o sintoma.
Para isto é preciso que o analista se cale como fez Freud diante de suas histéricas. Pois ao “calar-se” coloca aí uma pergunta a mais e cria a possibilidade para que, ao fim do tratamento, a experiência da fantasia fundamental se torne a Pulsão.

BIBLIOGRAFIA:


  • Lacan, J. – Écrits. Édition du Seuiol, Paris, 1996;
  • Lacan, J. – L’Etourdit in Scilicet nº 4, Éditions du Seuil, Paris, 1973;
  • Lacan, J. – Le Séminaire VI – Le désir et son Interpretation. Inédito,
  • Lacan, J. – Lê Séminaire XI – Les Quatre Concepts Fondamentaux de lª Psychanalyse. Éditions du Seuil, Paris, 1973;
  • Leguil, F. – A Entrada em Análise e sua Articulação com a Saída. Fórum Iniciativa Escola, Bahia, 1993;
  • Silvestre, M. – Demain, La Psychanalyse. Narvarin Éditeur, Paris, 1987.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Inconsciente e entrada em análise

A experiência que tem Lacan do inconsciente não é empirista, mas se ocupa do que já está aí, do que é prévio e do que condiciona toda experiência possível para o sujeito: a linguagem, que está no lugar, reservado por Descartes, às ideias inatas.
Desde modo, a experiência se desdobra ante a linguagem e sua estrutura. A estrutura condiciona a experiência e se interpõe entre esta e o sujeito vazio. O saber de todos e cada um, como saber inconsciente, é que não há relação sexual. E nenhuma experiência virá desmentir este axioma inscrito pela linguagem mesma. Por isso Lacan, ao falar em Televisão, nos disse que estava falando para o homem comum: o homem comum é aquele para quem é verdade que não há relação sexual. Ainda que o homem comum não compreenda, de toda maneira, já sabe.

Há que distinguir da linguagem do inconsciente que vale para todos e é, no fundo, nosso universal, o discurso do analista que, de maneira nenhuma, pode pretender ser equivalente.

"O inconsciente está estruturado como uma linguagem" e "o inconsciente é o discurso do Outro" não são duas fórmulas equivalentes. É preciso acrescentar que o último corte produzido no ensino de Lacan passa, precisamente, entre ambos. O fato de que o inconsciente seja linguagem não implica forçosamente que seja discurso. A divisão está acompanhada pela distinção entre gozo e desejo e a preeminência do gozo na teoria do desejo. De modo que quando dizemos que o inconsciente é linguagem estamos acentuando o gozo, enquanto que ao por em primeiro plano o discurso do inconsciente damos preponderância ao desejo. 

No texto A Instância da Letra, os matemas, as fórmulas da metáfora e metonímia se baseiam no significante, termo que todavia não se distingue claramente da letra. Será em Televisão que Lacan vai introduzir o conceito de signo para incluir a letra e o significante: o significante é o signo na medida em que tem efeito de sentido, enquanto a letra é o signo considerado por seu efeito de gozo. Assim, se o ponto de vista do significante nos conduz de imediato à teoria da comunicação e a implicar o Outro na linguagem, o ponto de vista da letra é, pelo contrário, autista; é a perspectiva de um gozo que não se dirige ao Outro. 

O gozo, na medida em que concerne ao objeto 'a' e não ao Outro, é pseudo sexual. 

É a passagem da função da palavra ao campo da linguagem que permite a Lacan introduzir neste último a função, a instância da escritura. Tudo o concernente ao "sinthome", à nova doutrina do sintoma, supõe a formulação de que o inconsciente escreve, que "isso" se escreve.

O inconsciente escreve e no inconsciente Isso se escrever foi o que permitiu Lacan aproximar-se de Joyce e poder ver comprovada sua tese que o inconsciente se escreve. O sintoma, desde o texto Função e Campo da Palavra e da Linguagem já estava remetido a um processo de escritura, ficando a palavra insuficiente para dar conta de sua consistência.

Consequência natural deste desenvolvimento foi estabelecer em “Televisão” que “na medida em que o inconsciente está interessado, a linguagem introduz as vertentes do sentido e do signo”.

A Linguistica, ao contrário da psicanálise, prescindiu-se do fato de que o inconsciente aí está interessado, ao trabalhar o significante e o significado. Foi, portanto, com Lacan que este fator foi recuperado e, com ele, pode-se esclarecer que o termo mensagem, concernente ao sintoma, está diretamente dependente da distinção entre o significante e o significado. Esta distinção foi o que levou Lacan a tentar esclarecer (me refiro aqui aos seu primeiros escritos, principalmente Função e Campo...) que a análise operava pelo sentido, dado pelo preenchimento das lacunas da história do sujeito pelas interpretações. Seriam pedaços desta história, experiências que haviam permanecido não assimiladas, que seriam integradas. Esta forma de trabalhar, no entanto, implicava que a experiência analítica fosse abordada a partir do sentido, o que deixava a posição do analista como se fosse o senhor da verdade. (Em "Função e Campo..." Lacan chega mesmo a dizer que o analista está no lugar de onde se decide o sentido) É importante ressaltar aqui que sempre que tratarmos do sentido o que está implicado é uma relação com a verdade que se coloca antinomicamente ao Real. Esta distinção é fundamental se queremos chegar a alguma conclusão com respeito a identificação ao sinthoma no final de uma análise. 

Por tudo isso vamos verificar Lacan questionando o sentido e seus limites na experiência analítica ao dizer que sempre que manipulamos o sentido só chegamos ao sem sentido. Para esclarecer esta afirmação ele vai trabalhar o sentido dito comum e o cómico na direção, exatamente, que vai do sentido comum ao cómico. “O sentido comum se caracteriza por ignorar o sem sentido e se mantém como sugestão. Quer dizer que a base do sentido comum é o significante amo, que ignora que ele mesmo é um sem sentido – o ignora no bom sentido, claro. É algo que se ignora quando se faz – com as melhores intenções do mundo, com compaixão – do significante amo o sentido comum.” É exatamente isso que mascara o sem sentido que vai ser desvelado ao final de uma análise. Quando, muitas vezes, se fala que o neurótico passa a vida tentando salvar o Pai, a referência é a este "mascarar o sem sentido". O neurótico, e aqui as histéricas estão a cavaleiro: procuram nada saber do cómico em jogo no sem sentido do significante mestre que o sentido comum procura manter a todo custo. Este significante que mantém o sujeito assujeitado a um sentido pre-estabelecido pelo circuito congelado de sua fantasia. Este mesmo que o discurso do mestre aponta no algoritmo S1/$ e que vai se colocar em condições de construir um chiste pois, assim como o “familionário” que Freud descreve no início de seu livro sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana, constitui-se em um novo significante. A forma deste significante se apresentar se justifica pelo fato de que o cómico especula com o sentido ao mesmo tempo que tem um saber sobre o sem sentido. “Existe assim o insensato sobre o que pode jogar o cómico ali onde o sentido sugestiona.” 

O sentido tem uma propriedade fundamental de ser o que nos fascina, na palavra. É interessante notar a homofonia desta palavra nos dizendo que algo se “faz sina” no sentido traçando o destino do sujeito. O termo fascinação nos indica o que de imaginário permanece na função da palavra. Se sabemos por experiência de nossa própria análise que a palavra faz vacilar o ser do sujeito e pode introduzi-lo na falta a ser, por outro lado sabemos que nesse caminho retém o que aí permanece de fascinação do sentido, relançando o vetor do grafo para os velhos caminhos do sintoma. É aí que Lacan vai opor sentido e signo em seus escritos de 70.

Para esclarecer esta oposição vamos tomar o que se diz sob o termo de mensagem cifrada, tão frequente nos escritos de Lacan quando ele se refere ao sintoma. Esta expressão, mensagem cifrada, traz em si mesmo uma ambiguidade que vai nos permitir caminhar um pouco mais. Ao mesmo tempo que nos remete, através do termo mensagem, à comunicação, uma mensagem cifrada pode nos levar ao equivoco de pensarmos que falta um Código que poderia decifrá-la, se pensamos que cifra só se referencia ao significante. No entanto esta expressão só poderá ser esclarecida se tomarmos por referência a libido, este mito freudiano, que Lacan vai substituir por seu conceito de gozo. 

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Sobre o Incurável

Em seu primeiro encontro com o Outro, consequência da incidência de um significante, o sujeito tem de lidar com um incurável, que não se subjetiva, que não permite que desejo e percepção coincidam. Ponto de opacidade e de silêncio, nos diz Lacan, que indica o lugar onde poderá se edificar a determinação significante capaz de escrever o fenômeno sintomático, na esperança de se “curar” a diferença que se instala na contingência deste primeiro encontro.
O sintoma é o sinal de que alguma coisa não anda, pois há uma dessemelhança definida como incurável, que se coloca como uma pedra no caminho do sujeito e se explicita no fato de que homens e mulheres estão privados do elemento que poderia propiciar a escritura da relação sexual.
É o incurável que promove o sintoma como única possibilidade de fazer laço, ao mesmo tempo em que permite uma leitura, uma vez que ele participa de uma escritura, função da letra. O sintoma é uma verdade mentirosa sobre este incurável, sobre a relação sexual que não existe. É por isso que Lacan pode dizer que é o sintoma que nós colocamos neste lugar da impossibilidade da relação sexual, constituindo-se, talvez, no único Outro que existe. 
Há, portanto, um incurável sobre o qual o sintoma se apóia e vai construir seu envelope formal. Incurável que se instala no ponto em que a presença do singular, do recusado e recalcado pelo sujeito vai se manifestar sob a forma de um mal-estar, presença de um excesso que não foi absorvido no processo de identificação, como disse Freud. É este processo de busca de uma identidade entre o que se deseja e o que se encontra que foi definido como pulsão. Em outras palavras a pulsão é o que se apresenta com seu caráter incurável, rebelde e refratário ao laço social, convocando o sintoma como uma forma de inscrever, de fazer coincidir o que insiste como marcas da singularidade do sujeito e de suas fixações.
O sintoma, assim como a cena da fantasia fundamental, nada mais é do que envelope da pulsão, modalidades de seu exercício, formas que o sujeito busca para apreender um objeto, no campo do Outro, que lhe sirva de parceiro. Este objeto “pequeno a”, se define a partir dos orifícios do corpo e marcam o ponto por onde o sentido não se deixa apreender nas malhas do discurso. É o pequeno “a” que apresenta o incurável em torno do qual a pulsão faz seu circuito desenhando uma escritura que situa a repetição do sintoma. 
Lacan nos diz que “O Outro é uma matriz com duas entradas”. O objeto pequeno “a” constitui uma destas entradas. E a outra é o Um do significante. Desfazer a presença deste Outro é fundamental para que o sujeito possa se livrar das diretrizes que determinam a fixação do circuito pulsional e o faz mola da repetição sintomática. 
O sintoma, por comportar um efeito de sentido, sofre a ação da interpretação. O seu valor de gozo é antinômico ao sentido, só se deixando apreender pelo equívoco, dai se deduz a função da letra. A redução do sintoma à letra é uma forma de renovar o estatuto do simbólico, resumindo a pulsão à função de furo. 
Por isso, a interpretação do analista pode apontar o incurável e esclarecer o circuito que delimita o objeto velado pela interpretação que o inconsciente fez do encontro traumático com o Outro sexo.
Este objeto, desde o congelamento do sentido na fantasia, passa a ser uma constante, nos dizendo de um ponto de incurável denunciado na atividade pulsional. Ora, a pulsão é sua força real ao mesmo tempo em que denuncia o limite do sintoma à ação do simbólico. O resto que escapa, foge, retorna sob a forma de mal-estar e relança o vetor pulsional sempre na direção determinada pelo imperativo do supereu. Desfazer este circuito, devolvendo ao objeto sua característica de ser qualquer um, mobilizando o seu valor de gozo é um dos objetivos de uma análise. Neste seu objetivo, a estratégia da qual se utiliza a psicanálise consiste em oferecer, a quem a busca como solução, a possibilidade de que esta cena se repita na transferência ao instalar, no ponto de não saber, um sujeito suposto saber da significação de seu sofrimento. Esta estratégia se utiliza do fato de que o inconsciente ex-siste e sua ex-sistência se sustenta, exatamente no fato da inexistência da relação sexual e que a sexualidade só se representa no inconsciente pela pulsão.
Utilizando-se do objeto pequeno ‘a’ enquanto agalma pode-se ter entrada ao Outro, fazendo possível a construção desta cena fundamental, a partir mesmo da determinação de uma constante através da qual o sujeito se relacione ao real do gozo. Balizada por esta construção, uma interpretação pode operar separando S1 do S2 e criar um intervalo deixando transparecer a dessemelhança entre o que se chamou de “A Coisa” e o seu “atributo”. Este é o momento em que acontece a produção de um significante que pode indexar a falta, um nome que estabelece novos rumos, fazendo intervir a letra como borda do real. 
O amor, resposta ao real da não relação sexual, sustenta o trabalho da transferência nesta relação ao Outro do saber, e se esvazia pela ação da interpretação que desfaz o mistério da diferença sexual. Este é o momento em que se abre, para cada
sujeito, uma nova relação ao saber a partir do consentimento com seu modo próprio de gozo. 
Esta passagem estabelece uma nova aliança com a pulsão. Nova aliança que só pode acontecer pela revitalização da marca do Nome Próprio propiciando um “saber aí fazer com o sintoma”, uma das fórmulas possíveis da liberdade. 
Assim o incurável, o resto que persiste passa, após o trabalho que leva ao consentimento com o inconsciente, do mais-de-gozar ao estatuto de causa. Desta forma o desencontro entre “esses dois investimentos”, como nos diz Freud, podem se colocar numa posição de trabalho para que a “coincidência entre ambas” produza uma nova aliança pulsional. Ou seja, uma aliança onde o resto não se apaga nem se cura, mas persiste como vivificação do objeto-resto não mortificado pela palavra. 

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Psicanálise ou Psicoterapia: O lugar do analista! (II)

Vamos retomar a questão da transferência pelo o esquema L, na tentativa de explicitar o mecanismo da relação narcísica: Vamos instalar o sujeito que chega no lugar de S, dizendo que ele aí está na mais pura ignorância do que lhe causa mal. O que este sujeito vem buscar no Outro a quem ele supõe um saber é um traço qualquer que possa dizer-lhe o que, na verdade, ele é. Este traço, poderá ser tomado aqui como o 'a', na medida que este traço faz exatamente a borda deste objeto que se encontra como um vazio, no espelho. A partir daí, vai se estabelecer a relação de transferência e o sujeito vai se identificar a este traço na esperança de que, assim colocado, seja amado pelo Outro que vai lhe fornecer a resposta para a questão de sua existência. 

                                                         

Alguns esclarecimentos são necessários: Na verdade a questão da existência do sujeito se coloca a partir de um Outro lugar, e não a partir de um outro sujeito como se tenta acreditar na relação transferencial, que se sustenta no eixo a - a', eixo narcísico, lugar do engodo amoroso. 
Cada vez que o analista intervêm, ele o faz do lugar do Outro (A), como se fosse a boca do Outro visando o sujeito do inconsciente ($), naquilo que ele tem de mais íntimo, kern unseres wessen, o coração do nosso ser, ou seja o que não tem palavra [S(A/)], ou ainda a causa de desejo. 
O que se espera liquidar, então, é esta suposição de saber que se estabelece no eixo da relação narcísica que tende a exercer o fechamento do inconsciente. 
Quando Lacan trabalhou o esquema L, ele nos disse que este eixo narcísico, imaginário, é o muro da linguagem. Isto pode parecer estranho, colocar a linguagem no eixo imaginário, uma vez que a linguagem seria simbólica. No entanto, o que temos aqui é um muro da linguagem que se constitui pelo véu do sentido que impregna a fala do sujeito quanto ele se dirige ao outro, exatamente para escamotear a sua relação ao Outro. Desta forma estará impedido o  acesso do simbólico ao real, estabelecido, aqui, pelo eixo A - S. Função esta que vai ser atribuída, mais à frente no ensino de Lacan, à fantasia fundamental. Por isto podemos até mesmo desenhar o matema da fantasia neste eixo a—-a’ ($<>a). Ora, cada vez que o analista intervêm, ele o faz do lugar do Outro, como nos diz Lacan em "A direção da cura..." promovendo uma brecha neste muro da linguagem, 
esburacando esta cortina de sentido que cega o sujeito". Este momento se traduz, na clínica, por aquela surpresa que têm, analista e analisante, quando o sujeito que está falando no divã, imerso e gozando de um sentido preestabelecido, se percebe pego em um vazio que produz uma mudança. Este momento é fugaz, mas fundamental. É o momento em que podemos testemunhar o aparecimento do sujeito como resposta do real no estabelecimento de um novo sentido que se apresenta promovendo o fechamento do inconsciente. Podemos dizer que é isto que produz um ato: relança o sujeito em uma nova cadeia significante, uma nova série produzindo no lugar da verdade um saber que possa sustentar a causa de desejo. 
Retomando a questão da identificação que, a meu ver é uma das balizas das diferenças que podemos estabelecer entre a psicanálise e a psicoterapia, vamos observar que ela ocorre a partir da escolha que o sujeito faz de um certo traço no Outro. Não é um traço qualquer. É um traço tal que o sujeito acredita dizer do desejo deste Outro. É um traço que vai dizer que deste ponto o sujeito vai ser amado pelo Outro. Este traço idealizado vai constituir o núcleo de sua fantasia, a borda do enquadre da realidade para este sujeito, porque é a partir deste traço que vai se constituir a fantasia fundamental do sujeito e que vai nos dizer como o sujeito interpretou o desejo do Outro. Esse traço é o traço unário (Einzeger Zug). Em outras palavras, este traço está inscrito no S1 ao qual o sujeito se encontra assujeitado. É o mestre que dita o caminho que o sujeito deve seguir para ser amado. Quando Lacan diz que a interpretação deve visar para além da significação que se produz a partir do significante ao qual o sujeito se encontra assujeitado, é a isso que ele está fazendo alusão. Ora, tudo isto poderá ser traduzido pela fórmula lacaniana: "o desejo é sua interpretação". 
A identificação especular imediata é apenas a sustentação da identificação que está em jogo nesta entrada do S1, já que é esta identificação primeira que sustenta a perspectiva do sujeito no campo do Outro. Em outras palavras, o que acabo de lhes dizer pode ser assim descrito: eu desejo o que o Outro deseja que eu deseje. Esta é a perspectiva do sujeito no campo do Outro onde a identificação especular poderá ser vista como algo que satisfaz. Esta identificação estabiliza a imagem e sustenta o sujeito no mundo de alguma maneira. 
Na verdade nunca nos livramos disto inteiramente, sempre vão existir pontos de identificação, de ancoragem, afinal Lacan coloca no fim do seu Grafo do Desejo o matema I(A): impossível viver sem ideais!
No percurso pelo gráfico sempre se esbarra em pontos de ancoragens onde se busca uma identificação. Na verdade cada ponto de estofo nada mais é que ponto de identificação significante. 
Mas, retornando ao percurso de uma análise, vamos dizer que o mal-estar a partir da claudicação do sintoma produz uma demanda ao Outro para que seja reconstituído o sintoma. Uma vez feito o percurso e experimentado o vazio no ponto onde a falta do Outro se apresenta, vai acontecer a possibilidade de se mudar o endereçamento da demanda 
que não será mais de reconstituição do sintoma, mas de relançamento do desejo de saber. Não mais de apaziguamento no sintoma, mas de uma inquietação produtiva. É o trabalho de transferência se transmutando em transferência de trabalho. 
De volta ao ponto do Ideal do Eu, o ponto no campo do Outro que o sujeito elege como sendo aquele onde ele pode ser visto pelo Outro e,portanto, amado, é o que lhe permitirá se suportar numa situação dual. Caso não houvesse esse ponto de ancoragem, de identificação no campo do Outro, esta dualidade especular seria insuportável. É o que acontece na psicose, quando a “Bejahung” fundamental não acontece e, como consequência, vai faltar ao sujeito este ponto de ancoragem produzindo uma tendência a fazer desaparecer o intervalo entre um e outro, sempre que a dualidade especular ocorrer. Na psicose a saída é o delírio, a erotomania; na neurose é o amor. A diferença entre um e outro fica por conta da certeza que o psicótico tem. O neurótico, mesmo que seu amor seja tão intenso que fica como que colado ao outro, vai existir uma certa distância que é colocada pela dúvida: será que ele me ama mesmo? Na psicose a certeza é plena: ele me ama, ou me odeia. 
Enquanto miragem especular, o amor tem a essência do engano, é aqui que se instala o único significante necessário a introduzir uma perspectiva centrada sobre o ponto do ideal. Este ponto, este traço, para que ele possa se tornar um ponto de visada do sujeito, tem que ser um traço que se refere ao objeto 'a'. É o traço da borda de onde o objeto foi subtraído. O 'I' é o significante que desenha o contorno nesta borda. É um significante qualquer, mas não pode ser qualquer um. É aquele que elegemos por estar mais próximo do objeto perdido, por isso Lacan matematiza assim este ideal: I(a). É sustentado por este traço que vai se instalar o sujeito suposto saber a partir do que Lacan chamou de significante da transferência. Todo o trabalho de análise, todo o trabalho da interpretação, vai na direção de promover a separação deste I do a, para reconstituir, no final, o I(A) na transferência de trabalho. 
Nesta coalescência do traço com o objeto, um dando suporte ao outro, um fazendo o outro existir na sua ausência, como ponto de visada, é que vai se estabelecer o engano da transferência. Este engano, podemos dizer muito simplesmente, é o seguinte: se você tem o traço da borda do objeto, você tem o objeto. Neste ponto acontece algo de paradoxal pois, ao se perceber que as coisas não são bem assim, ao se deparar com o vazio deste objeto vai acontecer, como diz Lacan, a descoberta do analista. Sim, pois se ao se dirigir ao sujeito suposto saber para se sustentar na alienação do seu sintoma, ele encontrar um analista, ele vai se deparar com este vazio, com esta inconsistência do Outro. 
Em outras palavras, vamos dizer que o sujeito busca um analista que vai sustentar o lugar de semblante onde vai reinar o objeto, mas somente para, ao fazer uma interpretação, dizer que esse lugar é vazio. Sabemos que toda intervenção do analista aponta para o final de análise. Em outras palavras, não há final de análise sem interpretação. 
Cumpre ressaltar aqui que há intervenções do analista que não são interpretações. Em outras palavras, é preciso que haja pelo menos uma interpretação que faz descolar o I do a para que se possa alcançar o final de análise. 
Um analista é aquele que escuta por detrás dos ditos do analisante. É preciso que o analista saiba que existe um para-além da demanda endereçada ao sujeito suposto saber, que é uma demanda de amor. É preciso que ele saiba se a demanda de amor aponta para um mais além e o desejo aponta para um mais aquém. Por isso Lacan forjou esta frase tão contundente quando ele tratou do amor de transferência: "Eu te amo, mas porque, inexplicavelmente eu amo em ti qualquer coisa mais do que tu, o objeto a, eu te mutilo". E Lacan continua dizendo que apesar desta fala apontar para o oral, ela nada tem a ver com a nutrição pois seu acento recai totalmente neste efeito de mutilação. É o que vai nos apontar a possível continuação da fala do analisante: "Eu me dou a ti, mas esse dom de minha pessoa - mistério!, se transforma, inexplicavelmente em presente de merda". 
Na verdade, se pensamos no agalma, este que sustenta a transferência, este que está dentro do Sileno e que ninguém viu, o que está dentro deste sujeito é merda. Quando, diz Lacan, após esta passagem em que o psicanalista se transforma em resto, em merda, podemos dizer é que será possível dar-nos conta da vertigem que acontece quando estamos diante de uma página em branco. Esta é uma experiência que, acredito, todos já vivemos: enquanto as idéias estão na nossa imaginação tudo corre fácil, na hora de passar para a folha de papel em 
branco que fica à nossa frente, ofuscando nossa ação, as coisas não são tão belas, na verdade é merda. Se o sujeito não pode tocar nesta folha em branco, diz Lacan, é porque ele a toma como papel higiênico. Esta distância entre o ideal e o objeto criado, estabelecido pelo princípio de realidade é que promove esta desidealização aterrorizadora. 
Como dizia a pouco, a liquidação da transferência é um assunto de destituição do sujeito suposto saber que se transforma num resto, exatamente este resto que nunca foi absorvido pelo saber suposto. Ao final, o esvaziamento do analista vai deixar um resto que será elevado a condição de causa de desejo. É quando, finalmente, o analista estará reduzido ao representante da representação do objeto "a". 

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Psicanálise ou Psicoterapia: o lugar do analista! (I)


"...le signifiant, c'est comme le style... 
si on ne part pas de ce niveau qui est le niveau de départ, on ne peut absolument rien faire de plus dans I’expérience psychanalytique... on ne peut rien faire de plus que de faire de la bonne psychothérapie"
(Jacques Lacan, Du discours Psychanalytique - Conférence à l'université de Milan, le 12 mai 1972) 

É a claudicação do saber, da certeza do sintoma, que abre um espaço para que um endereçamento possa ser feito a um Outro lugar, na esperança de que o estranho possa ser decifrado. Sim, decifrado, por que o sintoma, sendo a primeira mensagem cifrada, pleno de sentido, traz em si o "ciframento" do gozo, que se apresenta como um ponto sem sentido, como um estranho, como um "x" no caminho do sujeito. Este é o momento em que se instala, no ponto de inconsistência do Outro, um Sujeito a quem se supõe um saber sobre o que seria a sua verdade. Para que isto possa acontecer, uma escolha, forçada sem dúvida, deverá ser feita para que um significante qualquer venha se alojar aí, onde o saber falhou. Este significante será, ele mesmo, integrante do sintoma que se constituirá neste momento. É a transferência que, agora, pode sustentar estrategicamente a direção do tratamento, enquanto signo de um amor que possibilitará um giro de quarto de volta no discurso. 
No entanto, para que as coisas possam continuar caminhando em função da política do tratamento, é fundamental que este lugar, primeiramente imaginário, seja "cadaverizado", para usar uma expressão de Lacan em "A coisa freudiana", e que seja anulada a própria resistência do analista, o que equivale dizer que ele não vai simplesmente matraquear a significação que o paciente tenta fazer valer nas suas proposições. 

                                                  

Se tomarmos o Grafo do Desejo e colocarmos a claudicação do sintoma em s(A) teremos, no vetor que daí parte, um endereçamento ao (A), enquanto lugar. Se o analista se deixa levar pelo sentido que lhe é proposto, exaltando o Sq, o traço que lhe foi atribuído, ele estará favorecendo uma identificação e esvaziando sua palavra num discurso do convencimento que só vai se prestar a abrir caminho para a circulação no chamado andar inferior: s(A) ----- (A) ----- i(a) --- (m). Podemos também dizer do que se passa neste nível, utilizando a topologia da banda circular, com suas duas bordas e suas duas faces, para mostrar que estão presentes dois sujeitos e, portanto dois sentidos sem que nenhum, nunca, possa intervir sobre o outro. 
No entanto, para que uma análise possa acontecer é fundamental que, no amor de transferência que se instala, pelo menos um dos dois saiba que não tem o que lhe está sendo atribuído. Isto é o que se espera de um analista: que coloque em operação o desejo do analista que se constituiu em análise. É somente deste lugar que uma interpretação pode operar. 
Lacan, já em seu Relatório de Roma, nos diz que a interpretação por alusão é uma forma de se evitar este confronto narcísico próprio de um debate sustentado no eixo a ---- a'. A interpretação deverá, assim como o dedo 
de São João, apontar para o vazio. 
O que se objetiva, no final das contas, é uma primeira desarticulação do binário S1- S2 que, enquanto enunciado, sustenta sob a barra a relação de um sujeito com o objeto que ele escolheu a partir da interpretação que ele fez do desejo do Outro. Objeto esse que ele acredita poder consistir o Outro. A interpretação, portanto, abre um buraco no sentido até então estabelecido. Este vazio cria um estado de desamparo (hilflösigkeit) não deixando outra saída ao sujeito senão o bem-dizer pois, deslocando-se do eixo do enunciado para o da enunciação, ele se depara com a verdade que circula entre o gozo e a castração e que se elabora como uma relação do sujeito à pulsão. É neste ponto, e somente aí, que o sujeito poderá saber da causa de seu desejo pois, pela via da fantasia, esta causa está dissimulada pelos benefícios secundários. 
Este é o trajeto que vai, digamos, preparar o momento em que um ato analítico pode acontecer e possibilitar a "experiência da fantasia fundamental tornar-se a pulsão". 
Um pouco de topologia vai nos auxiliar a definir como esse 
caminho se desenha e ajudar a diferenciar uma psicoterapia de uma psicanálise. 
Se o analista não se cala impedindo que o objeto "a" possa reinar como semblante, o que vai acontecer é um favorecimento a uma identificação a partir mesmo da ação da sugestão através do convencimento, como vimos acima. Este movimento vai dirigir o vetor para o andar inferior do Grafo e estabelecer duas posições distintas aos dois sujeitos em questão: o terapeuta e o paciente, que permanecerão indefinidamente cada qual do seu lado sem que as intervenções possam produzir efeito. Teremos então uma topologia da banda circular onde o que se passa de um lado ali permanece. 
               

Mas quando o desejo do analista opera, fazendo reinar o objeto "a" ali onde uma resposta é esperada, veremos o vetor ser lançado na direção do andar superior do Grafo e, em função mesmo da não resposta, sofrer uma meia torção e retorna como mensagem invertida. 
A topologia que se desenha não é mais a da banda circular, mas sim a da Banda de Moebius, nos dizendo que em uma análise temos apenas um sujeito em questão pois a estrutura desta superfície demonstra a existência de um só lado e de um só corte. 

                                                  


Esta articulação coloca uma questão e nos abre a possibilidade de discutirmos um outro aspecto desta diferenciação entre psicanálise e psicoterapia: trata-se do que encontramos no momento em que Lacan trabalha, especificamente no Seminário XI o conceito de liquidação da transferência. Ali ele estabelece um dialogo com os conceitos estabelecidos pela IPA, no que diz respeito ao final de análise. O corpo teórico que sustenta o trabalho na Internacional vai na direção de acreditar que no final da análise a transferência poderia ser liquidada. 
Para tanto, era fundamental que o analista levasse o sujeito a não deixar resto algum, já que a identificação, como é de nosso conhecimento, se estrutura em torno do eixo imaginário e a partir da idealização. Desta forma, um "Eu" (moi) surgiria ali onde um sujeito, como resposta do real, deveria acontecer. É o reforço da alienação onde uma separação deveria acontecer. 
Ao contrário, o silêncio do analista em 'A' faz com que a demanda que lhe é dirigida sofra uma meia torção, criando uma banda de Möebius (como explicitamos acima) e, retorna ao sujeito a partir mesmo do desamparo que se estabelece em (d) - lembro-lhes que Lacan, ao construir seu grafo nos disse que este pequeno (d), num primeiro movimento, indica o estado de desamparo (detresse - hilflosigkeit) no qual se encontra o infans em seu encontro com o homem ao lado (Nebemmensch) - passando pelas demandas do Outro ($ <> D) onde vão se estruturar as pulsões em seu movimento de ir e vir em torno do vazio da falta no Outro S(A/). Uma relação muito especial vai se estabelecer então, a partir da interpretação que se faz desta falta, construindo uma cena ($<>a) que precisa ser retificada para que um novo saber fazer possa se instalar s(A). É por isso que afirmamos que só há um sujeito em questão na análise, o analisando, e que é somente a partir de um ponto fora da linha - que eu correlaciono, nesta situação, à função do desejo do analista - será possível sustentar o corte de uma linha sem pontos. 
Retomo o que acabo de dizer um outro caminho. Partindo do conceito de Sujeito Suposto Saber, Lacan vai nos dizer que esse sujeito, que supostamente sabe sobre o analisante, na verdade não sabe nada. O que se liquida na transferência, portanto é esta suposição de saber, já que, todo o processo de análise vai, à cada intervenção do analista, desfazê-la. Em outras palavras, como nos diz Lacan, este sujeito suposto saber deve ser considerado liquidado exatamente no momento da análise em que ele começa a saber alguma coisa do seu analisante. Por isso ele pode, neste momento, ser chamado de sujeito suposto vaporizado. Ainda uma outra forma de se dizer isto, com Lacan, é que a sustentação da transferência se dá pelo fato do analista se colocar como um "X" para o analisante. Quando o analisante vai, passo a passo, esburacando este lugar, o analista vai perdendo esta aura de suposição de saber. A consequência disto é que o analista não vai mais 
ter o poder de relançar o sujeito para mais uma volta no seu percurso. 
Espera-se que este momento seja aquele que venha encerrar um tempo de compreender e o sujeito em questão possa fazer uma passagem a partir mesmo do resto a que o sujeito suposto saber se transforma. 
Para além de suas vestimentas imaginárias, semblantes que o analista pôde encarnar para um sujeito, este o verá cair do lugar do Outro do saber ao lugar do “a”, objeto libidinal. 
Esta passagem, nós a conhecemos da teorização de Lacan, é a de analisante para analista quando este sujeito deseja, ele mesmo se prestar a sustentar este lugar de causa. 

Este termo "liquidação da transferência", se ele tem um sentido, é o da liquidação permanente deste engano através do qual a transferência tende a exercer o fechamento do inconsciente. Ou seja, no duplo movimento da transferência onde o sujeito se engancha supondo um saber ao Outro - estabelecendo o amor de transferência - vamos ver acontecer o engodo do tamponamento da falta do Outro. Este mecanismo é o da relação narcísica onde o sujeito tenta se colocar no lugar em que ele acredita ser amado pelo Outro. "De sua referência àquele que deve lhe amar, ele tenta induzir o Outro numa relação de miragem onde ele se convence ser amável".