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terça-feira, 2 de maio de 2017

Sobre o Sem-sentido e o “Sentido Gozado” (Jouis-sense)

“O que se goza fica esquecido por detrás do dito.” Esta pode ser considerada uma tradução do que se encontra em uma forma mais enigmática no texto L`Etourdit (Scilicet n. 4, pag. 5) – “o que se diz permanece esquecido por detrás do dito, no que se compreende” (Qu`on dise reste oublié derrière ce que se dit dans ce qui s`entend). Esta tradução pode esclarecer uma dificuldade que se apresenta quando articulamos o sentido com o sentido-gozado. Para responder a esta dificuldade, vamos fazer, primeiro, uma transformação em uma pergunta que está sempre presente no nosso dia-a-dia: o que quer dizer? que se transforma, neste momento em: o que quer gozar?
Sabemos que o sentido se escreve a partir do Outro (A), o que nos leva a escrever que o sentido é um “efeito de”. O sentido, portanto, não existe por conta própria. Sua produção implica um Outro: 
                               A s(A)
No entanto, quando estamos tratando da psicanálise, para além deste sentido que se apresenta como efeito do Outro nós implicamos, também, o sentido-gozado. Lembremos que este sentido-gozado foi identificado como parte da própria estrutura da fantasia fundamental:                                             

                                 ($<>a)
s(A)

Podemos ler isto que acabamos de escrever, tomando o Grafo do Desejo como referência, da seguinte forma: “não existe prática analítica sem que o efeito de sentido esteja parasitado pelo efeito de sentido-gozado.” (JAM – Los signos del goce – pag. 315). Esta afirmação implica uma posição ética do analista que se traduz nos seguintes termos: mais além da teoria que sustenta sua prática, o analista sempre se orienta pelo que pode perceber como efeito de sentido-gozado e que se apresenta, simplesmente, como antinômico ao efeito de sentido que se compreende. Em outras palavras, a atenção flutuante do analista deverá ser capaz de captar o que se apresenta como sem sentido dentro de todo o sentido que a palavra nos oferece à compreensão. Desta forma, podemos dizer que o sem sentido é um dos nomes do sentido-gozado. Assim, todas as vezes em que manipulamos o significante produzimos  um sem sentido no sentido à compreender, ao mesmo tempo que o transformamos em sentido para gozar. Este sentido para gozar é o que vai nos tocar, de alguma forma, como por exemplo, no chiste. Se tomarmos o momento do passe como uma referência, verificamos que ele se define pela transformação de um significante que, se destacando do conjunto pleno de sentido, vai produzir um sem sentido e retornar ao sujeito, deslocando-o da posição que, até então, sustentava. Pode-se fazer alusão, aqui, ao sintagma lacaniano que se encontra como título de uma de suas lições de um de seu seminário “L`insu que sait de l`une-bevue s`aille a mourre”: Vers a signifiant nouveau.

Quando um sujeito entra em análise, ele o faz pela via da transferência e, consequentemente, da instalação do Sujeito Suposto Saber - pivô disto que Freud chamou de sintoma analítico. Este Sujeito Suposto Saber só faz nomear, explicitar este efeito de sentido que vem do Outro. Em contra partida, o sem sentido é o que permanece separado do Outro ficando silencioso neste processo de proliferação do sentido a partir do sujeito suposto saber. Este sem sentido, que habita o núcleo da fantasia, é o responsável pela paralisia do sujeito diante de uma frase. No exemplo que Freud constrói, esta frase é: “bate-se numa criança”. O sujeito se detêm diante dela, na ânsia de restabelecer um elo perdido entre o sem sentido que ela aponta e o Outro do discurso. Esta frase, podemos dizer, vale por um significante unário, um S1, que leva o sujeito a inquietar-se, a buscar um outro significante que possa fazer as vezes de S2, estabelecendo um sentido qualquer. Mas, é fundamental se ter em mente que existe, neste ponto,  um paradoxo pois, este S1 além de não pedir uma outra palavra ou outra frase, S2, ele se recusa a isso.

Este ponto exige um pequeno comentário: apenas na psicose  tem-se um sentido-gozado que se relaciona ao Outro. Isto pode ser escrito, com JAM, na seguinte fórmula: js(A), indicando que o Outro está aí para gozar. Está afirmação se justifica a partir da proposição de Lacan que define o paranóico como aquele que identifica o gozo no lugar do Outro. Este Outro, da psicose, não é nunca um Sujeito Suposto Saber, mas sim um Sujeito Julgado Gozar.
Retomando nosso fio condutor reafirmo que um Sujeito Suposto Saber designa a presença de um significante, ou seja, indica um efeito de sentido, enquanto que o sentido-gozado não é suposto, mas experimentado. Quando acontece experimentá-lo, apenas se julga que está aí e se diz: é isso!
É necessário distinguir, do sentido-gozado, o que lhe permite acesso na teoria analítica: a fantasia que está, de alguma forma, articulada ao Outro.
Partindo do andar inferior do grafo: As(A), podemos seguir Lacan e buscar a posição do Outro no efeito de sentido, quando se trata da fantasia:
A/ ($<>a)
A     s(A)
Nestes dois esquemas pode-se perceber uma diferença fundamental que se apresenta em relação ao Outro. Enquanto na relação de sentido temos um Outro sem barra – o que indica a alienação - o Outro que corresponde à fantasia é um Outro modificado, um Outro barrado – que aponta para a separação. Nesta perspectiva a fantasia se coloca como o que responde, no sujeito, à angústia produzida pela presença do desejo do Outro. A barra sobre este Outro nos diz que ele é desejante. A fantasia pode, inclusive, ser considerada como o desejo do Outro ou, mais especificamente, como a interpretação que se fez do desejo do Outro:  de um Outro que não é o da linguagem, mas do desejo. 
Uma outra modificação se impõe na medida em que trabalhamos com a perspectiva de que a fantasia, tal como está escrita no grafo do desejo é uma formação imaginária – por isso está escrita em itálico - (Subversão do Sujeito... Edição JZ, pagina 830-831) e que agora se veste de gozo que é da ordem do real:

                        ($<>a)
                                             a

Duas vertentes podem ser destacadas da fórmula da fantasia a partir de como o objeto a aí se coloca: uma diz respeito ao objeto a na sua função de dividir, a outra, inversamente, na sua função de complementar.
Uma linha de trabalho pode levar pelos caminhos onde a problemática do tamponamento está presente. Se existe uma falta no Outro, e inclusive a falta do Outro, a fantasia estaria aí para fazer-se de tampão. Desde este ponto de vista, a idéia de um atravessamento da fantasia iria implicar no ultrapassamento disso que tampona a falta no Outro, para, consequentemente, acomodar-se a ela. 
Ora, a própria escritura da fórmula da fantasia, por Lacan, implica esta vertente do tamponamento, desta vez de um sujeito que, como falta a ser, se vê compelido a buscar uma figura imaginária, o objeto a, para complementá-lo. Até mesmo quando Lacan trata do objeto a como real, a problemática do tamponamento persiste. No entanto, passo a passo, uma outra vertente vai se impondo que é inversa à precedente: o objeto não tampona, mas divide, barra. Esta divisão é que serve de ponto de partida ao discurso do analista, no qual o objeto a aparece como divisor e não como tampão.
Se levamos em conta a estrutura de extimidade do objeto a poderemos escrever:                                           
                                           a A/

Esta nova perspectiva nos abre caminho para esclarecer que: quando se trata do objeto a como divisor, quando o que está em jogo não é a encenação da fantasia, mas o gozo que o habita, não se pode afirmar que a é sentido-gozado, efeito de sentido, porque o escrevemos como causa. E quando assinala-se ao objeto a função de causa da divisão do sujeito que, a partir daí resultará sensível aos efeitos de sentido, a não é efeito. De modo que não o convertemos no efeito de sentido, mas sim na referência dos efeitos de sentido e, mais ainda, na referência dos efeitos de sentido-gozado.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Eficácia da Psicanálise - O que faz um psicanalista?

O que se espera de um analista? A esta questão que Lacan se propos ele mesmo produziu, na ocasião, uma resposta  contundente e, como não poderia deixar de ser, enigmática: O que se espera de um analista é uma análise. O que faz um analista, portanto, é uma análise!. Isso nos dois sentidos possíveis que o verbo fazer, neste caso, nos aponta: 1- se espera que um analista seja capaz de levar uma análise até seu ponto de impossibilidade e, 2- que um analista possa advir de uma análise.
Encontro, em Silet (1994-1995), a seguinte afirmação de JAMiller: “O que faz o analista: falar do silêncio”. Por isso, certamente, o matema de Lacan que nos diz do silêncio do analista assim escrito: S(A/). Este matema defino  como a própria estrutura do falasser (parlêtre). O falasser tem, como enlaçamento lógico de sua estrutura, o silêncio e o analista deverá, quando falar, falar a partir do silêncio, ou, como nos diz JAM: “guardar o silêncio totalmente, ao falar”. Este é o segredo da interpretação que deverá preservar o lugar do que não se diz, ou melhor ainda, do que não se pode dizer. Esta talvez seja a mais preciosa das interpretações: o desacordo do analista em ocupar um lugar, que lhe demanda o analisante, que permita ao sujeito nutrir seu sintoma de sentido. Desta forma, o analista deverá se colocar mais ao lado daquilo que se cala do que ao lado do que fala, no analisante. 
O S(A/) nos diz do que permanece do significante após a palavra ter sido eliminada. Esta é a consequência da intervenção de um analista que vai propiciar ao significante da falta no Outro assumir seu valor de letra, ou seja, o valor de significante escrito. A escritura, podemos dizer, é a única forma que o ser falante tem para subtrair-se aos artifícios do inconsciente. Enquanto preso à palavra, o sujeito não tem como sair das artimanhas que o inconsciente apresenta e que Freud definiu como sendo suas formações. Isto se explica pelo fato de que, uma letra, ao contrário do significante, tem uma identidade. Enquanto que um significante só se apresenta a partir da diferença e sempre chama um segundo significante. Conhecemos bem as definições do significante que Lacan vai buscar em Saussure: que o significante é profundamente diacrítico – somente se coloca a partir da diferença e da distinção. A letra se basta. Um bom exemplo encontramos no número matemático. O número é cifra e não tem efeitos secundários de significado. Um significante, por outro lado, está posto como aquele que pode representar um sujeito para um outro significante. Ao sujeito, enquanto sujeito do inconsciente, sujeito dividido, só resta permanecer nesta brecha do significante como sujeito a advir, num futuro anterior.
A letra, por outro lado, tem uma identidade. O que se pode traduzir no inconsciente por uma letra, o sintoma, tem dois valores: S1 e a. Estes dois valores nos dizem que o Outro é uma matriz de dupla entrada: a e o Um do significante. 
Sabemos, a partir dos textos de Lacan dos anos setenta, que é possível articular uma certa contabilidade ao gozo. Isto se apresenta sob uma forma bem simples se pensarmos que o inconsciente está estruturado como uma linguagem e que, os significantes que constituem esta cadeia nada mais são do que uma forma que assume a transformação do gozo em algo contábil: a pulsão parcial e seu quantum de energia que Freud tratou de explicitar quando inventou a libido.  
O sintoma, faz o caminho inverso do que tenta o inconsciente. O sintoma é uma função: Lacan nos diz que é uma função matemática, um f(x) que realiza a transferência da contabilidade ao gozo, do simbólico ao real. E o faz ao traduzir o que há do inconsciente em uma letra.

Neste ponto devemos retomar a questão do silêncio do S(A/) ao acrescentarmos que a palavra, na verdade, guarda o silêncio e mesmo, podemos dizer, que ela falha diante do gozo. Por isso uma fantasia não pode ser falada, não pode ser interpretada, mas construída. É o que nos diz Freud a propósito do paradigma da fantasia que se define nos termos mesmo de sua construção como: “uma criança é espancada”. O cerne desta construção só a alcançamos a duras penas pois, o que se constitui como pivô desta cena é o que não nos lembramos, é o que não tem reminiscência e que precisa ser reconstruído. Não se trata, obviamente, de uma construção qualquer, mas de uma construção que responde a uma necessidade lógica em relação a algo que não se pode dizer. “Há o silêncio no coração da fantasia” (JAM).
Este silêncio, podemos correlacioná-lo ao famoso silêncio da pulsão de morte que Freud tão bem descreveu em seu texto “O Eu e o Isso” designando-lhe, como lugar, um possível núcleo do Isso. Assim, quando nos vemos aprisionados por uma pulsão qualquer, experimentamos o constrangimento de não podermos responder com palavras a este silêncio amedrontador que nos coloca servo de um circuito que só temos consciência no momento em que ele se fecha ao final de sua curva, fazendo retornar sobre o sujeito, um sentido-gozado sob a forma do discurso do Outro. 
Isso, que está no coração da fantasia e que habita o circuito pulsional nos diz de uma afinidade do silêncio com o gozo. Se, por um lado, esta afinidade se apresenta sob a forma da vergonha e da culpabilidade, tão comuns nos neuróticos, por outro lado ela nos diz deste ponto, sobre o qual insisto aqui: o silêncio diz respeito a uma falha mais essencial da palavra diante do gozo. O que talvez seja mais incisivo está expresso pelo que a mulher pode dizer de seu gozo: “Silet”, nos lembra Lacan.
Diante de tudo isto há um ponto que considero fundamental: se o analista se faz a partir do silêncio sobre o qual ele se assenta para sustentar uma análise até o seu final, ele precisa estar atento ao risco que existe da infiltração de gozo que este silêncio propicia. Uma das saídas possíveis para evitar este risco nos aponta na direção da importância da supervisão. 

terça-feira, 4 de abril de 2017

Sobre a Pulsão

A Pulsão, assim como o conceito de Desejo do Analista, cunhado por Lacan , é um conceito limítrofe. Ele se apresenta no ponto de junção e disjunção, de união e de fronteira. A pulsão, entre o somático e o psíquico. O desejo do analista, entre o desejo e a demanda.  
A pulsão é um conceito inventado por Freud para dar conta de sua clínica e fazer frente às suas próprias demandas de prover sua teoria de um lastro científico. Por isso é que na primeira página do seu trabalho sobre “A pulsão e suas vicissitudes” ele discute, longamente sobre o cientificismo deste conceito, para concluir que a pulsão é um conceito bá­sico, apesar de ainda obscuro.
A noção de pulsão em Freud é absolutamente nova e a maneira como ele a constrói, a partir da experiência do inconsciente, impede que o pensamento psicológico ve­nha lançar mão ao recurso do instinto, disto que podemos chamar de uma moral da natu­reza, como forma de não pensar as consequências da brecha aonde o inconsciente se constitui. Esta é a forma encontrada para quebrar com o que poderia haver de resquícios de um uso, deste vocábulo, anterior à psicanálise como aconteceu e acontece com o conceito de inconsciente.
  Vamos dizer que a pulsão não é a pressão, nem mesmo pode­mos dizer que é natural esta sequência que se apresenta pelos termos: fonte (Quelle), objeto (Objekt) e alvo (Ziel). Ao contrário, produto da incidência da linguagem, a pulsão ex-siste, só se apresentando enquanto um circuito, um circuito que não é outro senão a via que a demanda traça no campo do Outro. Circuito este que deixa como questão saber como o su­jeito encontrará aí seu lugar, pois assim como o próprio conceito abriu sua via no real e se estabeleceu como um “Grundbegriff”, demarcando este real, a cada volta a pulsão produz como consequência um novo sujeito, que como tal permanece como um sujeito a vir, já que vai desaparecer sob o significante que o representa para outro significante. 
Vamos acompanhar, com Lacan cada um dos termos que constituem esta ficção que é a pulsão.
Comecemos pela pressão, que pode ser identificada, desde o princípio a uma pura e simples tendência à descarga, como produto de um estímulo, de um suplemento de energia: Qn, nos diz Freud no Projeto. No entanto, é preciso diferenciá-la quanto a sua origem, de onde ela vem. Esta excitação, “Reiz”, para empregar um termo de Freud, é interna. Nisto ela se diferencia fundamentalmente de todo estímulo externo. Podemos exemplificar com as chamadas necessidades, o “Not”, muito bem demonstrado pela fome ou sede. No entanto, é fundamental distinguí-la do que poderia ser uma manifestação a nível do or­ganismo como um todo. Esta excitação é uma manifestação do campo freudiano como tal, campo este que está descrito como “Real-Ich” no texto do Projeto, nos lembra Lacan, “Real-Ich” que é concebido como suportado, não pelo organismo inteiro, mas pelo sistema nervoso. Existe, nesta concepção do “Real-Ich”, uma característica de sujeito planificado, objetivado. Esta energia, esta “Triebreiz” é o que vai investir certos elementos do campo em questão, investi-los pulsionalmente. Este in­vestimento, ao contrário do que ocorre com as funções biológicas, que sempre tem um ritmo e se sustentam em uma força momentânea (“Momentane Stoss-kraft”) possui como carac­terística ser uma força constante (“Konstante Kraft”)
Para tratarmos do outro termo, alvo, vamos lembrar, com Lacan que a satisfação (Befriedigung) da pulsão consiste em atingi-lo. No entanto, convêm dizer que o próprio Freud vai nos afirmar que uma das quatro vicissitudes da pulsão é a sublimação, que esta,  exatamente, é inibida quanto a seu alvo. Nem por isso ela deixa de nos dizer da satisfação da pulsão. (O exemplo do beijo e da fala é dado por Lacan.) Esta afirmação nos leva ao fato de que “o uso da função da pulsão não tem, para nós, outro alcance que não o de colocar em questão isso que é da satisfação”.
A clínica nos coloca frente a frente com essas situações todos os dias. Cito Lacan: “os pacientes não se satisfazem, como se diz, disso que eles são. E, portanto, nós sabemos que tudo isso que eles são, tudo isso que eles vivem, seus sintomas mesmo, pro­vêem da satisfação. Eles  satisfazem qualquer coisa que vai, sem dúvidas, ao encontro disso que poderia lhes satisfazer ou, talvez melhor, eles satisfazem a qualquer coisa”. Em outras palavras, podemos dizer que eles se dividem entre estar satisfeitos por algo e satisfazer a algo. Toda a nossa questão é procurarmos saber o que é que é isso que é aí satis­feito. 
Vamos tentar esclarecer esta questão do prazer/desprazer e satisfação. O primeiro ponto sera a distinção entre o prazer e a satisfação: a clínica se explica pela diferença entre o que dá prazer e o que satisfaz.
É fundamental não confundir o que satisfaz a alguém, com o que lhe dá prazer. Na neurose, o que parece estranho, fora do sentido, para o sujeito é que seu sintoma produz desprazer, mas eles têm a idéia de que há uma razão para isso: “Deus escreve certo por linhas tortas”, p. ex..
No entanto, quando o sujeito extrai um pouco de prazer com o que está mais além do prazer, isto é, consegue um pouco de prazer com o gozo, trata-se aí de sua fantasia. Mas, quando o sujeito vai satisfazer a algo que o confronta com o mais além do princípio do prazer, dizemos que é um assunto que se passa entre a satisfação e o gozo, e que o que está em questão é a pulsão. Em outras palavras, se colocamos o sujeito do lado da fantasia, ele será satisfeito por algo, se o colocamos do lado da pulsão, teremos um sujeito que satisfaz a algo. Isto é para dizer que, de modo algum o sintoma será o mesmo se o abordamos pela dimensão do prazer e do gozo, ou do gozo e da satisfação. 
Podemos abordar o sintoma de duas maneiras, conforme nos aproximamos dele pela via da fantasia ou da pulsão.
Pela via da fantasia, aqui localizado entre os pontos de gozo e prazer, vemos que o sintoma vai se instalar neste ponto para fazer valer uma certa proteção, ignorar, aquilo que é a causa do desejo. No entanto, estando assim colocado, ele também é capaz de tirar proveito da operação da fantasia que consiste em transformar gozo em prazer, de forma tal que os benefícios secundários vêem para propiciar prazer no desprazer. É o que escapa, apesar do recalque, que retorna como mais-de-gozar, e não como causa. 
Por outro lado, se examinamos o sintoma pelo viés da pulsão, o que vamos constatar é que o sintoma satisfaz a um gozo, exatamente pela interpretação que o neurótico faz da demanda do Outro, como sendo equivalente ao seu desejo. No entanto, colocadas as coisas deste lado, do lado do tesouro de significantes, a possibilidade de transformarmos a queixa em bem-dizer vai se apresentar de uma forma que pode ser descrita desta forma: Até onde se satisfazia gozar, deverá agora tentar examinar a que gozo satisfaz esta divisão sobre a qual você tem o dever de bem-dizer. Ali onde você tinha benefícios secundários, terá agora um gozo permitido. Em outras palavras, o benefício secundário - que é da categoria do gozo clandestino - se transforma num bem dizer - gozo permitido.
Retomemos o nosso percurso: estando satisfeitos o que levaria sujeitos neuróticos a procurar uma análise? Podemos dizer que é na tentativa de se satisfazerem que o desprazer advém e que por isso, eles se dão muito mal. “Até um certo ponto, é esse muito mal a única justificativa de nossa in­tervenção”, como analistas. 
Quanto ao alvo, alcançar a satisfação, não podemos dizer que ele não seja alcançado, mesmo produzindo um desprazer. “O que temos diante nós em aná­lise, é um sistema onde tudo se arranja, e que atinge seu próprio tipo de satisfação.” E, exatamente por sabermos que é possível utilizar-se de outras vias, é que nos autorizamos a ofertar nosso trabalho. E estas outras vias só são possíveis, no que se refere ao nível da pulsão, quando o estado de satisfação pode, aí, ser retificado.
Quanto ao objeto, para podermos tratar dele será necessário lembrar aqui a categoria do impossível. Este impossível é o real, que aparece em Freud como o “obstáculo ao princípio de prazer. O real é o choque, é o fato de que isso não se arranja logo, como quer a mão que se estende em direção aos objetos exteriores. O real, continua Lacan , se distingue pela sua separação do campo do princípio do prazer, por sua desexualiazação, pelo fato de que sua economia admite qualquer coisa de novo, que é justamente o impossível.” Ora, o princípio do prazer pode ser caracterizado exatamente pelo fato de que o impossível, aí estando presente, não é jamais reconhecido como tal. A satisfação pela via da alucinação é uma ilustração de como o princípio do prazer não reconhece o impossí­vel. Esta possibilidade de tratar o impossível é que nos leva a concluir que não é pela apreensão do seu objeto que a pulsão se satisfaz. A distinção entre “Not” e “Bedürfnis”, ou seja, entre necessidade e exigência pulsional aponta para o fato de que nenhum objeto da necessidade pode satisfa­zer a pulsão. A pulsão se satisfaz de seu percurso, de tal maneira que, no que diz respeito à pulsão oral, não é bem da nutrição que ela vai se satisfazer, mas sim ao “escolher o cardápio”. É como ela  recorta o campo do Outro e traz de volta significantes: “isso que vai à boca retorna à boca”. “É isso que nos diz Freud, nos lembra Lacan: O objeto na pulsão, sabemos que não tem, falando propriamente, nenhuma impor­tância. Ele é totalmente indiferente”.
O objeto da pulsão oral, por exemplo, nunca é lembrado como sendo o ali­mento, mas sim o seio. Seio este que, no que diz respeito à sua função na satisfação da pul­são seria formulada desta forma: ele aí se coloca para que “a pulsão aí faça a volta” (Lacan nos chama a atenção para a ambigüidade que tem este “faire le tour” na língua francesa: dar a volta ou escamo­tear).
Uma palavra mais sobre o objeto da pulsão: é dito que eles são objetos par­ciais, mas não porque “eles sejam parte de um objeto total que será o corpo, mas, sim, em função de que eles só representam parcialmente a função que os produz”.
Vejamos agora o que podemos dizer sobre a fonte. A delimitação mesma da “zona erógena”, que a pulsão isola do metabolismo da função, ou seja a diferencia do estômago, esôfago, etc, é feita de um corte que a entrada do significante promove no corpo e vai encontrar subsídio na sua própria estrutura anatômica de ser uma margem ou uma borda. É a brecha do inconsciente que se apresenta no corpo, para dar-lhe testemunho e manter o nível mínimo de tensão, manter uma força constante (Konstante Kraft). 
Para concluir vamos dizer que a partir do que vimos com este desmonte é que a pulsão só se sustenta enquanto uma mon­tagem, uma montagem que se apresenta como não tendo nem pé nem cabeça, bem ao estilo surrealista, nos lembra Lacan. Mas, na verdade esta montagem - longe de ser uma monta­gem imaginária  como podem sugerir as imagens do circuito pulsional que Lacan utiliza - é uma montagem gramatical, onde as inversões tais como exibicionismo - voyeurismo, ou masoquismo - sadismo, são inversões gramaticais, “inversões do sujeito e do objeto, como se o objeto e o sujeito gramaticais fossem funções reais”.

A ética da Psicanálise, portanto, se refere a uma identificação, no cerne da relação ética ao desejo com o limite mesmo que a verdade impõe à toda tentativa de se totalizar o campo de determinação da estrutura. A conexão ética do bem dizer ao que não pode ser totalmente dito, passa portanto, necessariamente, pelo trabalho da pulsão que, sendo parcial sustenta o saber inconsciente através da articulação dos significantes em uma gramática capaz de nos dizer do lugar do sujeito diante do Outro, na medida mesmo em que este lugar está, fundamentalmente, determinado pela relação que este sujeito estabelece com o objeto ao qual se liga, na tentativa de não desaparecer nos intervalos da cadeia significante. É por isso que podemos dizer que a ética que nos concerne pode ser localizada nesta brecha, matemizada como S(A/), onde a falta de garantias se abre à dimensão da responsabilidade. “Não há clínica sem ética”, nos diz JAMiller. Não há clínica Psicanalítica se não levarmos em conta que o desejo que move a ética da psicanálise é co-extensivo dessa falha que define o inconsciente como falta-a-ser. É nesse topos que vamos ver operar o desejo inédito que surge no momento em que um analisante se torna analista. 
Assim como “A Mulher”, o analista que advém desta operação vai ocupar um lugar onde a estrutura não dá conta de conter: a extimidade do objeto “a” que vai, ali,  apresentar-se, na medida que o analista se coloca numa posição tal que possa fazer reinar este objeto como causa de desejo. 

sábado, 18 de março de 2017

Sobre o final de análise

(Para comemorar os 50 anos da Proposição de 9 de outubro de 1967 de Jacques Lacan)

Toda a Proposição de 09 de outubro de 1967 podemos dizer, gira em torno de um “Tornar-se responsável do progresso da Escola, tornar-se psicanalista de sua experiência mesma(1), que continua vivo instituindo o novo no funcionamento(2).
O dispositivo do Passe construído - prudentemente, como nos diz o próprio Lacan - com a “intenção de isolar o que existe do discurso analítico”(3), segue levando à frente o seu objetivo de poder emprestar alguma luz ao princípio que está inscrito nos textos originais da Escola: “o analista só se autoriza de si mesmo”(4). Em outras palavras, é o dispositivo do Passe que “permite a quem pensa poder ser analista, comunicar o que o fez decidir-se e engajar-se num discurso do qual não é, certamente, fácil, ser o suporte”(5).
Mas de que experiência se trata? J. A. Miller nos diz que não é uma experimentação qualquer. “É a experiência entendida como subjetiva”(6), onde o “sujeito se dispõe a experimentar uma, talvez várias transformações, ou ao menos (...) certos estados inéditos para ele”(7). É uma experiência, podemos dizer, que implica num consentimento. Um consentimento com a experiência do inconsciente(8). Uma experiência que só se faz conhecer no “só depois” da significação, ponto onde se pode enlaçar, “no horizonte mesmo da psicanálise em extensão, o círculo interior que traçamos como hiância da psicanálise em intensão”.(9)

Proponho começarmos pelo “envelope formal do sintoma, que é o verdadeiro traço clínico...”(10) para examinarmos a incidência de uma interpretação que possibilitou a entrada em análise e, em seguida, trabalharmos a estrutura do sintoma enquanto “geometria do real”(11) para, assim, esclarecermos a interpretação que propiciou a criação de um ponto de báscula no quadro de uma cena onde a travessia do fantasma aconteceu.
O conceito, “envelope formal”, vamos encontrá-lo quando Lacan menciona a genialidade clínica de Clérambault, numa época em que desenvolvia sua teorização a partir da barra que mantinha separado significante e significado. Esta proposta girava em torno da possibilidade do simbólico recobrir todo o campo do imaginário. Nesta perspectiva, o sintoma seria o que vem atrapalhar a bela ordem articulando-se ao que “representa o retorno da verdade como tal na falha do saber”(12).
Minha proposta é instalar o “envelope formal do sintoma”, no andar inferior do Grafo do Desejo. Assim, a “verdade como falha do saber”, vai mobilizar o sujeito na busca de um “suposto saber” que possa restabelecer a estabilidade perdida instalando, na transferência, o sintoma analítico. Este momento de alienação ao Outro vai requerer uma intervenção do analista para que uma entrada em análise possa acontecer.
Se for bem sucedida, esta intervenção vai propiciar ao sujeito um encontro com as demandas do Outro que designam o ponto de fixação do circuito pulsional.
No segundo andar do Grafo, proponho trabalhar o sintoma como “geometria do real”(13). Ora, é o simbolicamente imaginário que vai constituir a verdadeira geometria e não o que surge dos espíritos puros. A geometria do real, nos diz Lacan, é a que tem um corpo, é a que nos referimos quando falamos de estrutura [S(A/)].
Nesta “geometria do real”, o sintoma é o que faz laço com o inconsciente, colocando-se como o quarto elo do nó para, assim, manter ligados o Imaginário, enquanto corpo, ao Simbólico da fala, enquanto o que produz efeitos sobre este mesmo corpo. O Real é o furo que o simbólico promove e contorna.
Esta última formalização, Lacan só pôde construí-la ao deslocar a ênfase que estava colocada sobre a barra do algoritmo S/s o que implicava uma esperança do simbólico recobrir todo o imaginário, para a relação do Simbólico com o Real onde o que está em jogo é um corte que deixa um resto.
Proponho-lhes localizar o final de análise neste ponto onde, depois de um percurso em que uma cena da fantasia fundamental pode ser construída vai acontecer uma interpretação que poderá desmontar o enlaçamento do sofrimento que trouxe o sujeito à análise, ou seja: a fantasia e o sintoma, deixando o sujeito frente a frente com o seu desejo.


Notas:
(1)Lacan, J., “Proposition  du 9 october 1967...”, in Scilicet nº 1, Ed. du Seuil, Paris, 1968, pag. 14.
  NOTA: Esta frase foi motivo de amplo debate entre Guy Clastres e J.A. Miller, publicado em Revue d’École de la Cause Freudienne, nº 18, pag. 209.
(2) Ibidem.
(3)Lacan, J., “Sur l’experience de la passe”, in ORNICAR? 12/13, Ed. du Seuil, Paris, pag. 117.
(4)Lacan, J., “Proposition...” op. cit. pag. 14.
(5)Lacan, J., “Sur l’experience de la passe”. Op. cit. pag. 118.
(6)Miller, J.A., ”Donc, je suis ça”, in Revue de Psychanalyse nº 27, pag. 10.
(7) Ibidem.
(8)Lima, C.R., “A segunda entrada em análise...”, in Opção Lacaniana nº 15, pags. 66-68
(9) Ibidem.
(10)Lacan, J., “De nos antécédents”, in Écrits, Seuil, Paris, 1966,pag. 66.
(11)Lacan, J., “Conferences et Entretiens”, in Scilicet 6-7, Seuil, Paris, 1976, pag. 40.
(12)Idem, - “Du sujet enfim en questions”, in Écrits, Op. cit. pag. 234.
(13)“Symboliquement imaginaire - c’est la geometrie ... la geometrie véritable n’est pas celle que l’on croit, celle que relève des purs esprits, mais celle qu’a un corps. C’est ce que nous voulons dire quand nour parlons de structure.”
- Imaginairement Symbolique - ça s’appelle la vérité.
- Symboliquement rèel - c’est l’angoisse (ce qui du rèel se connote à l’interieur du symbolique)
- Rèellement symbolique - c’est le symbolique inclus dans le réel - le mensonge.
 Lacan, J., “Vers un signifiant noveau”, in ORNICAR? nº17/18, pag. 9.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Sobre a Intolerância

“A intolerância sempre existiu, mas aumentou muito. Estamos vivendo reedição às avessas das famosas Cruzadas. Os cristãos saíram da Europa para atacar os muçulmanos e, hoje, o movimento é contrário. Acredito que as razões mudaram, apesar de os efeitos serem semelhantes. Estamos sofrendo mudança na nossa cultura, desde meados do século passado de forma acelerada. Há coisas boas e outras não. A ciência se desenvolveu de forma radical e trouxe consequências. Temos acesso às informações de forma instantânea. Um dos grandes progressos foi a pílula anticoncepcional, que trouxe como consequência a liberação da mulher do vínculo do casamento. Ela não precisaria ter um homem que a sustentasse e escolheria quando, onde e com quem engravidar. Logo em seguida, a ciência ofereceu à mulher a possibilidade de dispensar o parceiro para engravidar. Isso desfez, de alguma maneira, algo que existia desde a Renascença, até meados do século passado, que era a unidade do casamento porque era nessa célula que reinava o que a psicanálise chama de em nome do pai: a lei. A pessoa nascia em um ambiente em que as coisas estavam determinadas: homem se casa com mulher, cresce, trabalha, produz dinheiro. Na medida que a mulher foi se deslocando, criou-se uma possibilidade de novas investidas da própria ciência. Zygmunt Bauman, sociólogo polonês morto recentemente, coloca no livro A modernidade líquida, de maneira bem clara, como nossos limites foram se dissolvendo e dá exemplo da mudança da sociedade hardware para software, em que as empresas estão cada vez mais líquidas. Antes, éramos um grupo, hoje, estamos no reinado do 1 e esse 1, para se proteger, está cada vez mais avesso às diferenças. Não as suportando mais, ele tenta agredi-la ou se agrega aos que têm aversão a determinado estímulo. A liberdade de escolha para os homossexuais é agressão para os homofóbicos. Essa liquefação diz que está cada vez mais exigindo de cada um a responsabilização de seus atos. Há insuportabilidade da diferença em função de toda essa evolução que vem, o que chamamos de declínio da função paterna, em que a lei perde os seus limites. Quanto menos você sabe dos seus limites, mais frágil se coloca para suportar a diferença e, paradoxalmente, a falta de limites é que propicia mais liberdade. Hoje, não se tem mais respeito ao outro, e isso é consequência séria da falta de limites, por causa da sociedade software. Se não está bom, não tolero essa frustração, eu mudo. As diferenças estão insuportáveis. Não suportamos no outro o que não conseguimos consentir na gente.”

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Demanda de Análise e Pulsão

            Faço a opção de começar pela clínica e, desta forma, do particular para uma formalização passível de transmissão.
Maria começa sua primeira entrevista dizendo: “Sabe, estou lhe procurando porque não suporto mais a minha angústia”.
A angústia, nos ensina Freud, é um sinal. Um sinal de que algo não está funcionando bem. É um sinal de que as garantias que sustentavam o sujeito no mundo perderam esta capacidade.
Ao ser questionada sobre possíveis acontecimentos que poderiam estar relacionados com o surgimento desta angústia, Maria respondeu: “Está tudo absolutamente normal como sempre foi... com exceção de que vou me casar em breve. Mas, quanto a isto já está tudo resolvido. Nem quero tocar neste assunto. Aí não tem problema algum. Mas a minha angústia... está insuportável. Até aqui eu não contei para ninguém. Eu sempre aguentei tudo sozinha. Só agora é que comentei com uma amiga e ela me passou o seu nome...”
Michel Silvestre, em seu texto “Amanhã, A Psicanálise”, nos lembra que há uma diferença entre a queixa e o sofrimento. Maria, por exemplo, sofria mentalmente sem, no entanto, fazer qualquer queixa até que o casamento próximo trouxe consigo a questão do sexual e com ela um ponto de incerteza aí onde ela acreditava saber tudo.
O sintoma, sendo a primeira mensagem cifrada, pleno de sentido, traz em si o ciframento do gozo, que se apresenta como um ponto sem sentido.
Enquanto ciframento, o sintoma implica um endereçamento onde ele se decifra. Assim, de acordo com M. Silvestre, o que temos é: “de um lado, um sofrimento que o sujeito pode suportar com heroísmo estóico e sem dizer palavra. De outro, os portadores de sintomas que banham seu ambiente com eles, sem sofrerem eles mesmos absolutamente nada. Na medida em que os dois se conectam na mesma pessoa, isto pode produzir uma demanda de análise”.
Pode produzir, não quer dizer que produza, pois neste ponto em que o sintoma de Maria claudicou e um-a-mais de sofrimento foi acrescentado ela formulou uma queixa endereçada a alguém que ela supõe saber como restituir-lhe a satisfação perdida. Sim, porque havia uma satisfação no seu sofrimento. “Eu venho aqui, me disse Maria, para que você me ensine como é que vou fazer com a minha angústia”.
Lacan, em seu Seminário XI, nos diz que a única coisa que justifica a nossa intervenção como analista é este “mal-a-mais” que acontece quando o sintoma claudica e, se há uma retificação a ser feita na relação do sujeito com a satisfação, esta deverá ser a nível da pulsão.
No caso de Maria, que é uma profissional séria, que sempre foi a 1º aluna em todos os cursos que fez e que sempre resolveu todas as suas angústias através do saber que encontrava nos mestres e nos livros, o casamento próximo faz desvelar algo, que é ao mesmo tempo novo, estranho, mas também muito familiar.
A este ponto estranho-familiar que vem dizer da inconsistência do Outro que até então era tudo-saber, Lacan vai chamar de “objeto a”. É exatamente o aparecimento na cena, deste objeto que se apresenta aí onde o significante falta S(A/), que vemos surgir a angústia como sinal.
A angústia, portanto, não é um sintoma. Um sintoma é o que se produz, como significação do Outro, na tentativa de prover este objeto “a” de um envelope formal.
E Maria tenta “saber”, como forma de vestir este vazio com os significantes que o Outro possa produzir em reposta às suas queixas.
Mas o “saber” de Maria falhou. O sintoma constituído que lhe sustentava o mundo claudicou e, por isso, acrescentou-se um sofrimento a mais que propiciou a formulação de uma demanda: “eu não dou mais conta e procuro você porque acredito que você sabe...”
Maria tenta, neste momento, refazer a fratura que sofreu o envelope formal de seu sintoma, instalando no lugar um sujeito que ela supõe saber. É a tentativa de refazer, pela via do amor, as identificações que até então mantiveram ao abrigo este último reduto significante do sujeito, a pulsão, antes que ele caia no sem respostas, este lugar que foi matemizado por Lacan com o S (A/). Ao restabelecer, no amor de transferência, esta fratura instalando aí o analista como sintoma, o sujeito restabelece a crença de que o desejo do Outro é equivalente a sua Demanda. Talvez por isso é que Lacan afirma no texto  “A Subversão do Sujeito…” que o neurótico confunde o objeto de desejo do Outro com a demanda, fazendo um curto-circuito da fantasia à Pulsão.
Este é o momento em que uma escolha se impõe àquele a quem é dirigida esta demanda. A escolha é forçada, sem dúvidas, mas a possibilidade está colocada, e se apresenta em função da radicalidade da distinção entre a queixa e o sofrimento: “tratar a queixa, ou colocar em causa o sofrimento”.
Caso se faça a opção por tratar a queixa, oferecendo respostas ou até mesmo modelos de conduta, a suposição de saber estará sendo investida e, assim, cada traço oferecido servirá apensas para recobrir a causa, na esperança da constituição de um eu fortalecido que venha “dar conta” do sofrimento.
O recurso da topologia do Grafo do Desejo e das superfícies vai nos auxiliar nesta discussão:
Posso representar a situação descrita acima, no Grafo do Desejo, pelo andar inferior








Onde a busca da significação de um Outro para restabelecer a satisfação perdida produzirá imagens que, sendo propícias à identificação, vai fortalecer um “eu” (moi) que vai poder suportar as significações já pré-estabelecidas.




A Banda Circular, com suas 2 bordas, superposta ao circuito descrito no Grafo do Deseno, vai nos dizer da presença de dois sujeitos em cena. Dois sujeitos barrados e desejantes de sentido, na esperança de que possa ser excluída a questão que traz o “sem sentido” que habita o seio de toda significação. Ao mesmo tempo, aponta para a impossibilidade de se intervir pois, o que vemos são dois caminhos que são percorridos sem que haja qualquer mudança de posição, ou seja, a cada volta retorna-se ao mesmo lugar.
A outra possibilidade, a única para que uma análise possa acontecer, é a de se sustentar este lugar de endereçamento da demanda como vazio. Esta é a decisão que implica numa certa “renúncia de gozo”. Isto só se dá no momento que fazemos operar  o Desejo do Analista. Este desejo pode ser definido assim: dizer não à demanda para que se possa saber um pouco mais do desejo em questão, lembrando que o sujeito em questão numa análise é o analisante. Em outras palavras, para que se possa saber um pouco mais do que são as primeiras relações do sujeito com seus objetos.
É verdade que para operacionalizar este desejo é fundamental que o analista tenha caminhado, em sua análise pessoal até o ponto em que encontra a falta do significante no Outro. Até que se possa saber de uma certa opacidade subjetiva que permanece incrustada no Outro como restos da passagem da necessidade pelos desfiladeiros do significante. Saber  este único a operar como verdade.
Utilizando então a topologia do Grafo do Desejo, localizo esta passagem como sendo a do andar inferior para o andar superior:

 






A demanda endereçada ao lugar Outro se depara com este ponto de opacidade subjetiva que vai dizer da “presença primitiva do desejo do Outro como opaca, como obscura”. Isto deixa o sujeito sem recursos, desamparado (Hiflos). “Se está aí o fundamento disto que em análise foi explorado, experimentado, situado como a experiência traumática, é também onde se situa o horizonte do ser para o sujeito. É neste intervalo, nesta brecha de entre dois significantes que se coloca a experiência do desejo...”! (Lacan, S. VI)
A entrada em jogo do desejo do analista, fazendo passar do andar inferior para o andar superior, modifica totalmente a estrutura que, no andar inferior está representada pela Banda Circular. No entanto, neste ponto de opacidade subjetiva no Outro, uma meia torção vai ocorrer, transformando a Banda Circular em uma Banda de Moebius, confirmando, com sua borda única e seu lado único, que na análise só há um sujeito em questão: o analisante.





Esta é a retificação que coloca a questão da existência do sujeito a partir do esvaziamento dos significantes da demanda do Outro. Em outras palavras, é quando o envelope formal do sintoma não mais faz frente ao desamparo (Hiflosigkeit) que o sujeito encontra a dor de existir.
Para que esta experiência possa ser levada a cabo é fundamental um silêncio. Um silêncio que é muito mais que um simples calar-se. É o silêncio da falta de palavras que coloca o sujeito num lugar de onde ele não tem outra saída senão entrar e construir algo.
Verificamos no matema da transferência:

                           S ——————————>    Sq
                           _____________________
                           S ( S1 S2 S3 .................Sn )


 que quando um sujeito busca um significante que poderia representá-lo ele, na verdade, vai se deparar com uma falta o que o leva a buscar um objeto que acredita apaziguar seu desejo. Ele vai, então, tentar se articular com esse objeto de alguma maneira. E ele o faz a partir dos restos perceptivos que o constituíram num primeiro momento. São as percepções de sua primeira experiência de satisfação e que nunca sofreram tradução de traços de percepção para traços de memória. Alguns destes traços ficam como restos e são estes restos que colocam para o sujeito a pergunta: Que queres? É a partir destes restos que o sujeito vai construir sua fantasia fundamental.
Lacan, em seu Seminário XI, nos diz: “Não nos interessa explicar porque sua filha é muda, do que se trata é fazê-la falar !” Ora, a fantasia é muda. Construída a partir de dois elementos estranhos entre si:  $ (Simbólico) e “a” (Real), e se manifesta no Imaginário, pois esta fantasia nada mais é do que a colocação em cena dos significantes do sujeito.
É, pois, fundamental, que se faça falar o sintoma.
Para isto é preciso que o analista se cale como fez Freud diante de suas histéricas. Pois ao “calar-se” coloca aí uma pergunta a mais e cria a possibilidade para que, ao fim do tratamento, a experiência da fantasia fundamental se torne a Pulsão.

BIBLIOGRAFIA:


  • Lacan, J. – Écrits. Édition du Seuiol, Paris, 1996;
  • Lacan, J. – L’Etourdit in Scilicet nº 4, Éditions du Seuil, Paris, 1973;
  • Lacan, J. – Le Séminaire VI – Le désir et son Interpretation. Inédito,
  • Lacan, J. – Lê Séminaire XI – Les Quatre Concepts Fondamentaux de lª Psychanalyse. Éditions du Seuil, Paris, 1973;
  • Leguil, F. – A Entrada em Análise e sua Articulação com a Saída. Fórum Iniciativa Escola, Bahia, 1993;
  • Silvestre, M. – Demain, La Psychanalyse. Narvarin Éditeur, Paris, 1987.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Inconsciente e entrada em análise

A experiência que tem Lacan do inconsciente não é empirista, mas se ocupa do que já está aí, do que é prévio e do que condiciona toda experiência possível para o sujeito: a linguagem, que está no lugar, reservado por Descartes, às ideias inatas.
Desde modo, a experiência se desdobra ante a linguagem e sua estrutura. A estrutura condiciona a experiência e se interpõe entre esta e o sujeito vazio. O saber de todos e cada um, como saber inconsciente, é que não há relação sexual. E nenhuma experiência virá desmentir este axioma inscrito pela linguagem mesma. Por isso Lacan, ao falar em Televisão, nos disse que estava falando para o homem comum: o homem comum é aquele para quem é verdade que não há relação sexual. Ainda que o homem comum não compreenda, de toda maneira, já sabe.

Há que distinguir da linguagem do inconsciente que vale para todos e é, no fundo, nosso universal, o discurso do analista que, de maneira nenhuma, pode pretender ser equivalente.

"O inconsciente está estruturado como uma linguagem" e "o inconsciente é o discurso do Outro" não são duas fórmulas equivalentes. É preciso acrescentar que o último corte produzido no ensino de Lacan passa, precisamente, entre ambos. O fato de que o inconsciente seja linguagem não implica forçosamente que seja discurso. A divisão está acompanhada pela distinção entre gozo e desejo e a preeminência do gozo na teoria do desejo. De modo que quando dizemos que o inconsciente é linguagem estamos acentuando o gozo, enquanto que ao por em primeiro plano o discurso do inconsciente damos preponderância ao desejo. 

No texto A Instância da Letra, os matemas, as fórmulas da metáfora e metonímia se baseiam no significante, termo que todavia não se distingue claramente da letra. Será em Televisão que Lacan vai introduzir o conceito de signo para incluir a letra e o significante: o significante é o signo na medida em que tem efeito de sentido, enquanto a letra é o signo considerado por seu efeito de gozo. Assim, se o ponto de vista do significante nos conduz de imediato à teoria da comunicação e a implicar o Outro na linguagem, o ponto de vista da letra é, pelo contrário, autista; é a perspectiva de um gozo que não se dirige ao Outro. 

O gozo, na medida em que concerne ao objeto 'a' e não ao Outro, é pseudo sexual. 

É a passagem da função da palavra ao campo da linguagem que permite a Lacan introduzir neste último a função, a instância da escritura. Tudo o concernente ao "sinthome", à nova doutrina do sintoma, supõe a formulação de que o inconsciente escreve, que "isso" se escreve.

O inconsciente escreve e no inconsciente Isso se escrever foi o que permitiu Lacan aproximar-se de Joyce e poder ver comprovada sua tese que o inconsciente se escreve. O sintoma, desde o texto Função e Campo da Palavra e da Linguagem já estava remetido a um processo de escritura, ficando a palavra insuficiente para dar conta de sua consistência.

Consequência natural deste desenvolvimento foi estabelecer em “Televisão” que “na medida em que o inconsciente está interessado, a linguagem introduz as vertentes do sentido e do signo”.

A Linguistica, ao contrário da psicanálise, prescindiu-se do fato de que o inconsciente aí está interessado, ao trabalhar o significante e o significado. Foi, portanto, com Lacan que este fator foi recuperado e, com ele, pode-se esclarecer que o termo mensagem, concernente ao sintoma, está diretamente dependente da distinção entre o significante e o significado. Esta distinção foi o que levou Lacan a tentar esclarecer (me refiro aqui aos seu primeiros escritos, principalmente Função e Campo...) que a análise operava pelo sentido, dado pelo preenchimento das lacunas da história do sujeito pelas interpretações. Seriam pedaços desta história, experiências que haviam permanecido não assimiladas, que seriam integradas. Esta forma de trabalhar, no entanto, implicava que a experiência analítica fosse abordada a partir do sentido, o que deixava a posição do analista como se fosse o senhor da verdade. (Em "Função e Campo..." Lacan chega mesmo a dizer que o analista está no lugar de onde se decide o sentido) É importante ressaltar aqui que sempre que tratarmos do sentido o que está implicado é uma relação com a verdade que se coloca antinomicamente ao Real. Esta distinção é fundamental se queremos chegar a alguma conclusão com respeito a identificação ao sinthoma no final de uma análise. 

Por tudo isso vamos verificar Lacan questionando o sentido e seus limites na experiência analítica ao dizer que sempre que manipulamos o sentido só chegamos ao sem sentido. Para esclarecer esta afirmação ele vai trabalhar o sentido dito comum e o cómico na direção, exatamente, que vai do sentido comum ao cómico. “O sentido comum se caracteriza por ignorar o sem sentido e se mantém como sugestão. Quer dizer que a base do sentido comum é o significante amo, que ignora que ele mesmo é um sem sentido – o ignora no bom sentido, claro. É algo que se ignora quando se faz – com as melhores intenções do mundo, com compaixão – do significante amo o sentido comum.” É exatamente isso que mascara o sem sentido que vai ser desvelado ao final de uma análise. Quando, muitas vezes, se fala que o neurótico passa a vida tentando salvar o Pai, a referência é a este "mascarar o sem sentido". O neurótico, e aqui as histéricas estão a cavaleiro: procuram nada saber do cómico em jogo no sem sentido do significante mestre que o sentido comum procura manter a todo custo. Este significante que mantém o sujeito assujeitado a um sentido pre-estabelecido pelo circuito congelado de sua fantasia. Este mesmo que o discurso do mestre aponta no algoritmo S1/$ e que vai se colocar em condições de construir um chiste pois, assim como o “familionário” que Freud descreve no início de seu livro sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana, constitui-se em um novo significante. A forma deste significante se apresentar se justifica pelo fato de que o cómico especula com o sentido ao mesmo tempo que tem um saber sobre o sem sentido. “Existe assim o insensato sobre o que pode jogar o cómico ali onde o sentido sugestiona.” 

O sentido tem uma propriedade fundamental de ser o que nos fascina, na palavra. É interessante notar a homofonia desta palavra nos dizendo que algo se “faz sina” no sentido traçando o destino do sujeito. O termo fascinação nos indica o que de imaginário permanece na função da palavra. Se sabemos por experiência de nossa própria análise que a palavra faz vacilar o ser do sujeito e pode introduzi-lo na falta a ser, por outro lado sabemos que nesse caminho retém o que aí permanece de fascinação do sentido, relançando o vetor do grafo para os velhos caminhos do sintoma. É aí que Lacan vai opor sentido e signo em seus escritos de 70.

Para esclarecer esta oposição vamos tomar o que se diz sob o termo de mensagem cifrada, tão frequente nos escritos de Lacan quando ele se refere ao sintoma. Esta expressão, mensagem cifrada, traz em si mesmo uma ambiguidade que vai nos permitir caminhar um pouco mais. Ao mesmo tempo que nos remete, através do termo mensagem, à comunicação, uma mensagem cifrada pode nos levar ao equivoco de pensarmos que falta um Código que poderia decifrá-la, se pensamos que cifra só se referencia ao significante. No entanto esta expressão só poderá ser esclarecida se tomarmos por referência a libido, este mito freudiano, que Lacan vai substituir por seu conceito de gozo.